Que merda!



Sábado. Quartoze horas. Av. Brasil. Movimento. E no principal cruzamento da cidade, no principal cruzamento de toda a cidade, uma merda! Foi isso!

Vínhamos caminhando, falando da vida, e entre uma “vitrine” e outra, enquanto comprávamos “alfaces” e tagarelávamos tentando responder perguntas para as quais certamente não teríamos as respostas – como as mulheres costumam fazer –, eu vi. Tratava-se de um senhor de meia idade, quase careca. Ele vestia uma calça vermelha e uma camiseta preta. Nas mãos a guia de um cachorro. Um cachorro marrom. Era daquele tipo porte médio, bem peludo, com os olhos meio puxados. Como é mesmo o nome da raça? Eu nunca lembro! Pipocas!

Bom, o fato é que o cão cagou na rua, a mais ou menos 01 metro da esquina – desconfio que ele não saiba que aquilo era inadequado – e o homem, sem nenhuma tentativa de disfarce, na frente das pessoas que passavam, virou as costas e saiu. Juntar aquela merda toda, pra quê?

PUTA BOSTA! Será que ninguém se importa? Gritei, chamei o homem, xinguei. Ele só fez olhar para mim, dar de ombros e responder: - A rua é pública. Eu pensei: - Caramba, por isso mesmo!

Olhei ao redor, para ver se enxergava alguém da Brigada Militar, um Azulzinho ou quem quer que fosse, alguém disposto a me ajudar. Afinal, o cão havia cagado em plena Av. Brasil, no PRINCIPAL CRUZAMENTO DA CIDADE. Só que para a minha surpresa, eram as pessoas que estavam me olhavam, como seu EU fosse uma maluca.
A sensação de que eu estava sendo lesada demorou a passar, durou a tarde toda. Fiquei horas matutando com meus botões. E o povo vem falar em políticos corruptos! E nós queremos discutir a política nacional?
Mas e o que mais poderíamos esperar?

Dá pra implodir o país?

P.S 01: E olha ironia: a imagem e a cartilha de civilidade que encontrei na web são da Veja!!! (risos)
...
P.S 02: A câmara de vereadores de Passo Fundo não tinha aprovado uma lei sobre esse assunto? (tô falando sobre proprietários de cães e cocôs, quero deixar bem claro! risos).

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A garota de vitrine


Faço referência ao filme de Anand Tucker não porque acredito que haja uma relação inequívoca entre mim e a personagem (e há, sempre há), mas porque gosto, e ouso dizer que acho até poética e pós-moderna, a idéia de uma parede de vidro. Uma parede de vidro translúcida através da qual enxergamos o mundo. Pode ser uma vitrine ou pode ser uma tela de cristal líquido (?).

Confesso, que certa feita cheguei a pensar num sentido eternizado da palavra vitrine - “vidraça atrás da qual ficam expostos objetos destinados à venda ou a serem vistos”(1) - de modo que a sensação estabelecida, na época, é a de que só havia duas ações possíveis diante da uma vitrine: a de comprar ou a de ver.

No entanto, essa imobilização do sentido – como costumamos fazer com uma série de outros signos que circulam em nosso cotidiano, ignorando o diálogo que travam entre si e com o contexto no qual são produzidos e consumidos – passa a ser relativizada diante da complexidade e da dinamicidade das práticas com as quais nos comprometemos no novo mundo que acaba de nascer, mas que existe desde sempre.

Passei, então, a me perguntar: quem está dentro da tela? E quem está fora dela? Quem é o exposto? E o observador? De quem é o texto? Há de fato um avatar? Sou espectador ou sou navegante ou sou autor?

Foi a ousadia de Chaplin que, como num passe de mágica, devolveu, diante dos meus olhos, a polissemia do signo vitrine (que na leitura que fiz/faço era/é sinônimo de tela). O ator – e atentem aqui para o fato de que quando trago essa informação é porque acredito na potencialidade da linguagem cênica, uma vez que ela consegue descortinar as essências das práticas da vida – anteviu uma nova relação do sujeito com o mundo. Já no início do século passado ele colocou Carlitos frente aos manequins da vitrine de uma loja qualquer, e sem cerimônia apontou para fora dela, apontou para nós, espectadores, (des)cobrindo nosso esconderijo, anunciando que somos espectadores na mesma medida em que somos atores.

Mais tarde, também fui sacudida pela obra de Velásquez – homem do seu tempo, em tal dimensão, que se tornou homem do meu também – e me perguntei novamente: afinal, quem é o quadro? A evidência, então, saltou-me as vistas. Nós não olhamos As Meninas, mas somos vistos por elas. Frente a imagem, a sensação que nos toma é de que as regras do jogo foram mudadas.

Hoje, a vitrine é, para mim, uma metáfora do lugar onde nossas vivências estão/são experimentadas, e a partir do qual exercitamos múltiplas leituras. Ora, somos transeuntes de uma orbe hipertextual, sujeitos das nossas partidas e chegadas, autores das histórias que contamos e das que lemos. Arquitetos dos caminhos possíveis e dos impossíveis.


“Mas onde está o quadro?”, perguntou Theóphile Gautier em 1819, quando viu As Meninas. Uma das respostas possíveis é que o quadro está onde nós estamos, emoldurados pela vitrine, pelos limites das 17 polegadas, livres dentro da infinidade da rede. Somos pintados, dentro e fora da moldura. Seguimos num (des)território, (des)interessados da saída, dos reversos e dos anversos (para fazer referência a Lacan).

Obs.:
1. FERREIRA, A. B. H. Mini Aurélio: o minidicionário da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.
2. Os (des) que estão neste texto nasceram de uma provocação feita pelos meninos do EREP Sul, que, sem querer, me deram muito em que pensar.

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    "ao reescrever o que dissemos, protegemo-nos, vigiamo-nos, riscamos as nossas parvoíces, as nossas suficiências (ou insuficiências), as hesitações, as ignorâncias, as complacências; [...] a palavra é perigosa porque é imediata e não volta atrás; já a scriptação tem tempo à sua frente, tem esse tempo próprio que é necessário para a língua dar sete voltas na boca; ao escrever o que dissemos perdemos (ou guardamos) tudo o que separa a histeria da paranóia" (BARTHES, 1981, p.10).

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quem é a garota da vitrine?

Minha foto
Sou formada em Radialismo e Jornalismo pela Universidade de Passo Fundo e desde 2004 atuo como professora dos cursos de Comunicação Social na mesma instituição. Ainda na UPF, fiz especialização em Leitura e Animação Cultural, e recentemente concluí o doutorado pela PUCRS. Sempre trabalhei com o universo radiofônico, pelo qual sou apaixonada. Gosto particularmente das suas aproximações com a arte. Minhas últimas descobertas de pesquisa rondam em torno da produção de sentido (em nível verbal e não-verbal) sob a perspectiva semiológica.

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pelo caminho...

lendo... só lendo e imaginando uma história da nossa suposta história...

Eu, robô de Isaac Asimov

de Brenda Rickman Vantrease sobre os poderes que se interdizem desde o início dos tempos.

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velhos escritos

o que são scriptografias e outras escrivinhações?

O título deste blog foi inspirado nas observações feitas por Roland Barthes a cerca do processo de produção e significação dos textos que circulam pela prática social. Ele fala em scriptação, escrita, escritor e escrevente. No entanto, o nome scriptografias e outras escrivinhações, não passa de uma "licença" poética, por assim dizer, com o objetivo de nominar um espaço de livre expressão, em formatos e temas que fazem parte do meu cotidiano, assim como do cotidiano de quem por aqui passar.
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    A lista de links que vocês está vendo abaixo, refere-se aos blogs criados pelos meus alunos, da 7ª e 8ª série, da Escola Baltazar de OLiveira Garcia, em Porto Alegre. A oficina durou 04 encontros, durante os quais buscamos conhecer e dominar as ferramentas da internet e as plataformas que hospedam blogs. A proposta era criar um oportunidade de autonomia na produção de conteúdo no espaço online.

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