o cinismo da História



Essa semana li no Yahoo que um historiador inglês acusou os Beatles e o Stones de serem “cínicos capitalistas”. Disse que eles não estavam interessados em ser porta vozes de uma geração e só queriam vender discos. Resumido: não foram heróis da contracultura, mas exploraram cinicamente a cultura jovem dos anos 1960 com fins exclusivamente lucrativos.
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Li com calma o texto encontrado, e fiquei me perguntando: mas foram eles que se auto-proclamaram heróis ou fomos nós que os elegemos? Qual o problema quando músicos querem vender seus discos? Qual o problema?
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Curiosamente discutimos na aula sobre os Beatles, a Britnei Spirs (é assim que escreve? não faço questão de saber!) mídia, memória do presente e o sentido da perspectivas na sobremodernidade (palavra nova que aprendi, gostei!). Sob certo aspecto, dizia uma colega, a Britnei fez mais sucesso que os Beatles, mas um sucesso despropositado e efêmero, que se dissipa na mesma medida em que passam os segundos midiáticos. Já os Beatles servem, ainda, como referência para a nossa geração (mesmo que na década de 60, nem sequer tenhamos nascido).
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Mas até quando? Até quando conservaremos este senso de perspectiva, essa capacidade de olhar para trás e estabelecer pontes entre o passado (distante ou não) e o presente? De olhar ao redor e perceber que todo fenômeno cultural se estrutura de modo dialético e, portanto, dinâmico e mutante. Compreendê-los (se é que isso é possível) exige perceber cada evento mergulhado em seu contexto sócio-histórico, o que é cada vez mais difícil num mundo cujo volume de informações disponibilizadas constitui um tipo de memória on time, sem rastros.

Sim, parece que sou uma pessimista, mas isso não é verdade!

Que herói? Que bandido? E a mãe, vai bem?

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Semana passada, tarde da noite, estava eu, bem tranqüila, recolhida ao berço. Tv ligada, mas os olhos e os “ouvidos” num livro delicioso. Paula, de Isabel Allende. Ganhei de presente da Cilene (ela sempre acerta nos presentes).
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Viajava compenetrada nas paisagens literárias quando ouvi o nome da minha cidade no Jornal da Globo. Isso poderia não ser nada se eu morasse no Rio, São Paulo, ou qualquer outra capital do país, mas como moro em Passo Fundo, interior do Rio Grande do Sul, achei que deveria ser coisa muito importante... e era: era a comprovação de que definitivamente o mundo tinha virado de cabeça para baixo!
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Deu-se que o ladrão, ao roubar um carro, em plena Avenida Brasil (via principal do município), encontrou dentro do veículo um menino. O garotinho, que tinha cinco anos, foi deixado pelos pais enquanto dormia. Os pais? Ah, esses tinham ido tomar cerveja no bar da esquina... (& * # ~ @ + % ~). O ladrão, “cidadão consciente que é”, devolveu o carro imediatamente e depois ligou para a polícia. No telefone ele avisou: “E diz pro filho da puta do pai dele que se da próxima vez que eu pegar aquele auto e tiver o piá lá, eu vou matar ele”. Bom, depois da notícia não consegui mais ler, dormir então... No dia seguinte fiquei sabendo, pelos alunos, que a pauta foi parar até nos canais internacionais!
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O que me inquietou tanto? Primeiro pensei na metáfora do cachorro que tanto discutimos na época de faculdade. A frase célebre está no filme A Montanha dos sete abutres: “Se um cachorro morde um homem, isso não é notícia. Mas, se um homem morde um cachorro, aí sim isso é notícia”*. E, bingo! Podemos aplicá-la ao caso sem medo. No entanto dos meus problemas este é o menor: seria só mais um exemplo, dentre tantos, que eu vou usar na sala de aula.
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Mas o que me aborrece mesmo é a constatação transparente e irrevogável de que estamos nos tempos da fluidez, de que não temos mais os pés e nem as mãos no chão, de que vivemos como os astronautas destreinados em campos sem gravidade, sacolejando desordenadamente pra lá e pra cá, sacudindo os braços e as pernas deseperadamente na tentativa de controlar alguma coisa que foge do ordinário. De que não há mais certo, errado ou justo e de que se há, não faço a mínima idéia de quais coisas correspondem a qual conceito…
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Na manhã do outro dia, depois da nossa espantosa participação em cadeia nacional, abri a Zero Hora, na página policial. Foi sem querer, eu juro! Um nota, no canto da página, dizia: Brigadiano mata mulher….
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Raios!!! Sempre me disseram que a audiência precisa de heróis e vilões, como uma espécie de espelho, projeção, expressão ou sei lá o quê (isso tudo é muito teórico para o meu estado de indignação, tão prosaico)… então fico me perguntando, que tipo de referente somos nós, origem dessa imagem que se reproduziu diante do vidro midiático? Dessa imagem consumida e, portanto, aprovada.
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Então foi a minha vez de fazer greve de silêncio, jejum ou qualquer outra esquisitice do gênero.
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*A frase foi feita em 1877 pelo jornalista americano John B. Bogart. Ah, os americanos, desgraça de jornalismo importado!!!!!!

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    "ao reescrever o que dissemos, protegemo-nos, vigiamo-nos, riscamos as nossas parvoíces, as nossas suficiências (ou insuficiências), as hesitações, as ignorâncias, as complacências; [...] a palavra é perigosa porque é imediata e não volta atrás; já a scriptação tem tempo à sua frente, tem esse tempo próprio que é necessário para a língua dar sete voltas na boca; ao escrever o que dissemos perdemos (ou guardamos) tudo o que separa a histeria da paranóia" (BARTHES, 1981, p.10).

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quem é a garota da vitrine?

Minha foto
Sou formada em Radialismo e Jornalismo pela Universidade de Passo Fundo e desde 2004 atuo como professora dos cursos de Comunicação Social na mesma instituição. Ainda na UPF, fiz especialização em Leitura e Animação Cultural, e recentemente concluí o doutorado pela PUCRS. Sempre trabalhei com o universo radiofônico, pelo qual sou apaixonada. Gosto particularmente das suas aproximações com a arte. Minhas últimas descobertas de pesquisa rondam em torno da produção de sentido (em nível verbal e não-verbal) sob a perspectiva semiológica.

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pelo caminho...

lendo... só lendo e imaginando uma história da nossa suposta história...

Eu, robô de Isaac Asimov

de Brenda Rickman Vantrease sobre os poderes que se interdizem desde o início dos tempos.

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velhos escritos

o que são scriptografias e outras escrivinhações?

O título deste blog foi inspirado nas observações feitas por Roland Barthes a cerca do processo de produção e significação dos textos que circulam pela prática social. Ele fala em scriptação, escrita, escritor e escrevente. No entanto, o nome scriptografias e outras escrivinhações, não passa de uma "licença" poética, por assim dizer, com o objetivo de nominar um espaço de livre expressão, em formatos e temas que fazem parte do meu cotidiano, assim como do cotidiano de quem por aqui passar.
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    A lista de links que vocês está vendo abaixo, refere-se aos blogs criados pelos meus alunos, da 7ª e 8ª série, da Escola Baltazar de OLiveira Garcia, em Porto Alegre. A oficina durou 04 encontros, durante os quais buscamos conhecer e dominar as ferramentas da internet e as plataformas que hospedam blogs. A proposta era criar um oportunidade de autonomia na produção de conteúdo no espaço online.

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