Ousemos ser preguiçosos*



Esse é o título da entrevista concedida por Roland Barthes em 1979 para o Lê Monde-Dimanche (um periódico Francês). Barthes foi um pensador, ou, como ele mesmo preferia dizer, um ensaísta. Ao longo de toda sua obra se debruçou sobre as questões da produção do sentido, de modo particular na literatura, mas, de modo geral, na variedade de textos que circulavam pela cena social francesa, na segunda metade do século passado. Tanto em nível verbal, como não verbal.
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Meu namoro platônico por seu trabalho é antigo, mas o contato bem recente: há dois anos, quando decidi fazer leituras semiológicas de imagens fotográficas no mestrado. Tenho lido muitos de seus livros, e em meio a reflexões, por ora, bem difíceis, confesso, encontrei essa entrevista, publicada no livro Grão da Voz (Edições 70). Ela fala sobre o DIREITO A PREGUIÇA. Fiquei espantada e, ao mesmo tempo, exultante.
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Essa é uma característica de Barthes, acordar a pluralidade dos sentidos, adormecer significações estereotipadas, transgredir o discurso corrente. Além de estudar o processo de produção dos sentidos, a estrutura das narrativas, do discurso, da linguagem, ele também a perverte em seus ensaios. Falar em amor, em discurso amoroso e em sujeito apaixonado, em plena década de 70, quando estamos ainda sob os resquícios da modernidade foi uma transgressão; exigir o direito a preguiça então, sendo ele um intelectual sério e respeitado, trouxe um certo desconforto aos acadêmicos, mas também a burguesia empenhada cotidianamente na missão de produzir, produzir, produzir.
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Mas vamos à preguiça! Barthes dizia que o primeiro erro que cometemos é negar a reserva que fazemos ao lugar da preguiça em nossas vidas. Estamos sempre nos colocando em situação de lutar para fazer as coisas. Diz ele: “Quando não as faço (as tarefas), ou pelo menos durante o tempo em que não as faço – pois acabo geralmente por às fazer – trata-se de uma preguiça que se me impõe, em vez de ser eu a escolhê-la e me impor a ela. É evidente que essa preguiça envergonhada não assume a forma do NÃO FAZER NADA, que seria a forma gloriosa da preguiça”.
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Barthes acreditava que a sociedade ocidental, caracterizada pela preguiça envergonhada, sofre da falta de poder e liberdade para “não fazer nada”. Como se deixar-se preguiçoso não fosse conveniente, um crime! “Já reparou que se fala sempre do direito ao lazer, mas nunca do direito a preguiça? Pergunto-me, aliás, se entre nós, ocidentais e modernos, existirá o não fazer nada“. E conclui dizendo que mesmo quando as pessoas ficam livres, nunca ficam sem fazer nada. Conversar, caminhar, ler, dormir, não é exercitar a preguiça.
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Para ele a verdadeira preguiça seria, no fundo, uma preguiça do “não decidir”, do não ter de dizer “eu”, do quase “não estar ali”. Para melhor explicar, Barthes lembra de um ensinamento Tao sobre o assunto, que caracteriza esse estado como o “não mexer nada”, “não determinar nada”.
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Claro que há tantas preguiças quantas são as pessoas e suas vidas, talvez tantos quantos forem os diferentes grupos da cena social. Entretanto, nas sociedades ocidentais, o domingo foi institucionalizado como o dia da preguiça e, por causa disso, acabamos caindo no problema da preguiça ritualizada. O rito precede o desejo do sujeito de, efetivamente, não fazer nada. E essa obrigação de domingo ao qual nos submetemos culturalmente, torna-se quase um suplício. Para o querido Barthes, esse suplício, se chama TÉDIO. Temos aí a explicação para o estereótipo de que domingo, seria, supostamente, um dia chato.
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Schopenhauer já disse: O tédio tem a sua representação social no domingo.
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Talvez, a forma da preguiça pós-moderna esteja alterada e não corresponda a utopia descrita por Roland Barthes, mas bem que eu queria “um dia branco, um dia silencioso em que pudesse ser preguiçosa, quer dizer, livre”.
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Obs.:
1. Esse texto nasceu de uma preguiça minha, sem direito por sinal.
2. Os trechos em negrito foram retirados da fala do autor.
3. Eis aqui a referência do livro: ROLAND, B. O grão da voz. Lisboa: Edições 70, 1981.
* Já publiquei este texto antes, mas diante da preguiça que me invade, vale a pena reeditá-lo!

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    "ao reescrever o que dissemos, protegemo-nos, vigiamo-nos, riscamos as nossas parvoíces, as nossas suficiências (ou insuficiências), as hesitações, as ignorâncias, as complacências; [...] a palavra é perigosa porque é imediata e não volta atrás; já a scriptação tem tempo à sua frente, tem esse tempo próprio que é necessário para a língua dar sete voltas na boca; ao escrever o que dissemos perdemos (ou guardamos) tudo o que separa a histeria da paranóia" (BARTHES, 1981, p.10).

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Sou formada em Radialismo e Jornalismo pela Universidade de Passo Fundo e desde 2004 atuo como professora dos cursos de Comunicação Social na mesma instituição. Ainda na UPF, fiz especialização em Leitura e Animação Cultural, e recentemente concluí o doutorado pela PUCRS. Sempre trabalhei com o universo radiofônico, pelo qual sou apaixonada. Gosto particularmente das suas aproximações com a arte. Minhas últimas descobertas de pesquisa rondam em torno da produção de sentido (em nível verbal e não-verbal) sob a perspectiva semiológica.

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o que são scriptografias e outras escrivinhações?

O título deste blog foi inspirado nas observações feitas por Roland Barthes a cerca do processo de produção e significação dos textos que circulam pela prática social. Ele fala em scriptação, escrita, escritor e escrevente. No entanto, o nome scriptografias e outras escrivinhações, não passa de uma "licença" poética, por assim dizer, com o objetivo de nominar um espaço de livre expressão, em formatos e temas que fazem parte do meu cotidiano, assim como do cotidiano de quem por aqui passar.
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