OS SAPATOS



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Assistindo à TV ontem, durante o último jornal da noite, vi e ouvi o relato sobre o recente episódio de uma entrevista coletiva que Bush concedeu ao lado do primeiro ministro Nuri al-Maliki. Na ocasião, um jornalista, de origem iraquiana, jogou os sapatos na cabeça do presidente americano. Parece que para a cultura deste povo, este é um dos piores insultos que alguém pode receber.

No entanto, Bush, do alto da sua suposta superioridade, apenas comentou ironicamente:
“Não sei que causa defende. Não me senti ameaçado em nenhum momento. Não me irritou. Se querem dados, era um sapato número 10 (equivalente ao 42)".

Por cinco segundo, assistindo aquela notícia, eu quis propositalmente ignorar questões como: decoro, lei e ordem, diplomacia, ou mesmo os questionamentos a cerca da postura profissional do mencionado jornalista. Fiz isso porque me detive em pensar apenas na representatividade deste gesto e da reação esboçada do presidente. Foi então que lembrei imediatamente da reflexão que fez Baudrillard diante dos americanos sorridentes que encontrou durante sua visita aos Estados Unidos. Para ele o gesto aparentemente simpático, tinha no fundo outro significado:

"O sorriso da imunidade, o sorriso da publicidade: “Este país é bom. Nós somos os melhores”. É também o sorriso de Reagan: o auge da auto-satisfação de toda a nação americana (...). Sorria, e os outros lhe sorrirão. Sorria para mostrar como você é transparente e cândido. Sorria se não tiver nada para dizer. Acima de tudo, não esconda o fato de não ter nada para dizer nem sua total indiferença para com os outros. Deixe esse vazio, essa profunda indiferença brilhar espontaneamente em seu sorriso. Dê o seu vazio e a sua indiferença aos outros, e ilumine o seu rosto com o grau zero da alegria do prazer, sorria, sorria, sorria... os americanos podem não ter identidade,mas têm belíssimos dentes".

Mais adiante o autor ainda comentou que, embora os Estados Unidos sejam “um mundo completamente podre, com riqueza, poder, senilidade, indiferença, puritanismo e higiene metal, pobreza e desperdício, futilidade tecnológica e violência cega”, eles são o centro do mundo, o modelo para o qual estamos caminhando...

Infelizmente, guardadas certas generalizações, exageros e complexidades presentes no texto do Baudrillard, questionado por muito outros pensadores, neste caso, sobre este fragmento, já que para próprio autor diz tudo o que se pode fazer é jogar com pedaços, concordo com ele: em gênero, número e grau... O grau zero da minha pretensa inconsciência, porque as vezes não quero pensar que o palhaço somos nós, que este sorriso não passa de uma gargalhada disfarçada da nossa cara.
m
Obrigada, caríssimo jornalista, sejam quais forem os teus motivos, sinto os meus representados pelo teu gesto... também queria poder insultar o Bush!

2 comentários:

ViNícULa disse...

o problema é que ele não acertou a sapatada... se tivesse acertado, aí sim, eu o parabenizaria
embora
confesso que admiro-o
apenas pelo fato de ele ter coragem para tomar tal atitude mesmo sabendo que seria agredido gravemente

Pablito disse...

Olá... no blog resenhasdebanheiro.blogspot.com há exiete um agradecimento para você...

Se achar conveniente leia huahuaha

beijoooos

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    "ao reescrever o que dissemos, protegemo-nos, vigiamo-nos, riscamos as nossas parvoíces, as nossas suficiências (ou insuficiências), as hesitações, as ignorâncias, as complacências; [...] a palavra é perigosa porque é imediata e não volta atrás; já a scriptação tem tempo à sua frente, tem esse tempo próprio que é necessário para a língua dar sete voltas na boca; ao escrever o que dissemos perdemos (ou guardamos) tudo o que separa a histeria da paranóia" (BARTHES, 1981, p.10).

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Sou formada em Radialismo e Jornalismo pela Universidade de Passo Fundo e desde 2004 atuo como professora dos cursos de Comunicação Social na mesma instituição. Ainda na UPF, fiz especialização em Leitura e Animação Cultural, e recentemente concluí o doutorado pela PUCRS. Sempre trabalhei com o universo radiofônico, pelo qual sou apaixonada. Gosto particularmente das suas aproximações com a arte. Minhas últimas descobertas de pesquisa rondam em torno da produção de sentido (em nível verbal e não-verbal) sob a perspectiva semiológica.

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