ler de cabeça erguida: um textinho sobre os direitos do sentido

Terça-feira, dia 08 de junho de 2010.
Postado por Bibiana de Paula Friderichs às 21:21

“Nunca lhe aconteceu, ao ler um livro, interromper com freqüência a leitura, não por desinteresse, mas, ao contrário, por afluxo de idéias, excitações, associações? Numa palavra, nunca lhe aconteceu ler levantando a cabeça?” Com este trecho de escritura Roland Barthes (1988, pg.40) aciona, no ensaio Escrever a leitura, uma trama de perspectivas inquietantes acerca dos descaminhos do texto. Mais do que isso, debruçado sobre as relações do sujeito leitor com a narrativa pela qual é atravessado, o autor problematiza a possibilidade de estabelecermos, dentre as inúmeras discussões pertinentes ao tema, uma Teoria da Leitura.

Semiólogo, ele acredita que ler é também escrever, uma vez que diante dos significantes oferecidos à fruição durante a leitura, é o leitor quem produz em si, concomitantemente, outro texto, cuja lógica é associativa. Na contramão dos pressupostos herdados pela retórica clássica e recusando a insistência em cooptar à leitura as regras de composição, que de modo geral constrangem o leitor a um sentido único – àquele mobilizado pelas pulsões do autor –, Barthes (1988) defende que o processo de leitura tem uma energia digressiva.

Não se trata de negligenciar a força do escritor na teia do texto, mas de reconhecer que á esta lógica dedutiva, onde estão implicados os elementos de determinação e limites disponibilizados por ele, entremeia-se a lógica do signo: a cada frase com a qual nos deparamos no texto, a cada grupo de significantes disponíveis para leitura, acordamos em nós outras idéias e/ou imagens que vão tecendo uma narrativa nova e singular. Por isso dizemos que é o leitor quem significa o texto enquanto lê, e por isso dizemos que ao ler sempre escrevemos, mesmo que seja em nós.

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2 comentários:

Roberta Scheibe disse...

Biba, sou sua fã!
Amei o texto!!!!
saudades suas,amiga querida.

Gi disse...

por isso que mandam eu ficar quieta quando quero explicar um texto/conto/poesia/coisas estranhas

saaaaaaudaaaaaaaaade

p.s. como deixar tao lindo o blog?

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    "ao reescrever o que dissemos, protegemo-nos, vigiamo-nos, riscamos as nossas parvoíces, as nossas suficiências (ou insuficiências), as hesitações, as ignorâncias, as complacências; [...] a palavra é perigosa porque é imediata e não volta atrás; já a scriptação tem tempo à sua frente, tem esse tempo próprio que é necessário para a língua dar sete voltas na boca; ao escrever o que dissemos perdemos (ou guardamos) tudo o que separa a histeria da paranóia" (BARTHES, 1981, p.10).

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Sou formada em Radialismo e Jornalismo pela Universidade de Passo Fundo e desde 2004 atuo como professora dos cursos de Comunicação Social na mesma instituição. Ainda na UPF, fiz especialização em Leitura e Animação Cultural, e recentemente concluí o doutorado pela PUCRS. Sempre trabalhei com o universo radiofônico, pelo qual sou apaixonada. Gosto particularmente das suas aproximações com a arte. Minhas últimas descobertas de pesquisa rondam em torno da produção de sentido (em nível verbal e não-verbal) sob a perspectiva semiológica.

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Eu, robô de Isaac Asimov

de Brenda Rickman Vantrease sobre os poderes que se interdizem desde o início dos tempos.

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o que são scriptografias e outras escrivinhações?

O título deste blog foi inspirado nas observações feitas por Roland Barthes a cerca do processo de produção e significação dos textos que circulam pela prática social. Ele fala em scriptação, escrita, escritor e escrevente. No entanto, o nome scriptografias e outras escrivinhações, não passa de uma "licença" poética, por assim dizer, com o objetivo de nominar um espaço de livre expressão, em formatos e temas que fazem parte do meu cotidiano, assim como do cotidiano de quem por aqui passar.
    hola !


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