Perguntas armadas

Ontem à noite li a matéria de capa da Zero Hora. Geralmente leio o jornal à noite, no reduto do meu sofá, mesmo que eu ouça, freqüentemente, que há esta hora, as notícias já estejam velhas. É um hábito.

Li, e à cada duas linhas não pude calar a pergunta (porque somos pessoas perguntadoras): como o debate foi chegar a isso? Depois das últimas ocorrências no Realengo/Rio, a culpa da violência desenfreada que nos assoma é das armas e não das pessoas, ou das políticas?

Ok. Então, vamos meter mais um referendozinho ou um plebiscito, quem sabe, para resolver a questão. Mas já não fizemos algo parecido alguns anos atrás? Por que, em tão pouco tempo, voltar a consultar a população sobre o mesmo assunto, havendo tantos outros para por em discussão. Alguém quer aproveitar um momento de choque da população para provocá-la a responder ao contrário do que já havia sido decidido? Ou alguém quer esconder sua responsabilidade gastando tempo e dinheiro para revogar uma norma recentemente aprovada.

Toda esta mobilização, que se traduz ao observarmos as capas dos jornais, a escalada na tv, e o tempo gasto pelos parlamentares e pelas ONGs se debatendo em suposições, me acorda para um sentido outro que o tema (armas), agora constituído em narrativa, oferece. Como se a problematização em torno delas sintetizasse toda a explicação da tragédia social recentemente vivida; à moda de um Deus Ex-Machine (para citar o prof. Roberto) que surge absoluto, com o objetivo de proporcionar conforto e redenção aos sujeitos apavorados diante dos fatos. Sua enunciação aparentemente anula a distância estabelecida entre eles e a compreensão racional e imediata da realidade representada; lastro esse que estava garantido até aqui pela imanência característica do discurso adotado. Como se o porte de armas concedido a população civil guardasse em si toda a obviedade que não conseguimos significar antes dele, como se nos proporcionasse a confortante explicação para a aparente “loucura” do homem e para a morte das crianças.

Mas, ao contrário, penso que reclamar, agora, por novas votações, rouba a complexidade dos fatos que a antecedem - esvazia-os, empresta-lhe um postulado -, ao mesmo tempo em que nos descompromete de qualquer intervenção. Suponho que ao ler a reportagem especial de ZH, no sofá de casa, a meia luz, tomando uma xícara de chocolate quente num dia de chuva, poderia alimentar uma impressão ainda maior de conforto do que a situação em si já representa. O debate em torno das armas é como uma esponja mágica que limpa todo o sangue e a dor expostos nos dias anteriores e me oferece um noticiário “limpinho”, “for, for way”. Poderia, senão fosse a nossa habilidade, às vezes pouco valorizada ou desenvolvida, de interpretação, que inquieta. Principalmente quanto à poucas páginas dali, leio um texto sobre determinada lei uruguaia, que dava anistia a criminosos do período ditatorial no país. Mesmo depois de duas consultas populares que a apoiavam, e diante de um governo legitimamente escolhido pelo povo, foi revogada... por esse próprio governo.

Credo! Falando assim até me sinto adepta de algum partido ultraconservador ou mafioso que apóia o porte de armas e a redenção de criminosos.

Mas a questão de fundo não me parece ser esta, e sim o questionamento do que é a democracia, de qual o nosso poder de transformação da realidade social, das lentes que escolhemos ou que nos emprestam para ver o mundo, daquilo que nos cega; mais do que isso, das desculpas (as armas, a caça as bruxas) que procuramos - ou nos são oferecidas - para todas as culpas que carregamos (sociais, políticas); dos pesos que queremos aliviar, das perguntas erradas que fazemos, e das perguntas que não queremos fazer.

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"O que é o que é?" e as lentes da Dialética


Como as pessoas são perguntadoras! Estamos invariavelmente fazendo perguntas, inúmeras perguntas, de todos os tipos: como vão às coisas? qual é a raiz quadrada de PI?; embora eu desconfie que a maioria das respostas quase nunca é utilizada pelo perguntador, são apenas coisas que ficam empilhadas em sua memória. Eu disse a maioria. Restam, por exemplo, as perguntas sinceras de nossos pais e amigos sobre como estamos, ou as perguntas de pesquisa. Mas, mesmo algumas desse último tipo, ainda estão sujeitas a um efeito de inatividade parecido.

Talvez por isso, às vezes, também guarde a impressão de que algumas perguntas vão cair de moda: poxa, mas quantos anos você tem mesmo?; ou são invasivas: porque você não atendeu o celular?; ou ainda, despropositadas: qual a densidade de uma toalha para secar elefantes? Mas quando eu menos espero, são elas que me assaltam. Dia desses me pediram para escrever sobre “o que é ser jornalista?”, como se eu soubesse... Já nem sei mais o que é o jornalismo, que dirá a odisséia de seus desdobramentos. Aliás, para mim, essa é do tipo démodé, até porque somos muitas coisas.

Além disso, definitivamente não simpatizo com perguntas que começam com a injunção “o que” ou “qual” ou “quantos”. Digo isso porque as percebo como reféns de um vocabulário (e, portanto, de uma cultura) positivista, e freqüentemente levam a uma noção equivocada de precisão. Diante delas temo que qualquer resposta converta-se imediatamente num muro alto e intransponível em torno do nosso trabalho, um limitador da nossa ação, função ou compromisso, na medida em que ao afirmar que somos isso, acabamos conseqüentemente negando que somos aquilo, numa simplificação confortável (e, talvez, facilmente aceita) da complexidade do nosso trabalho e da responsabilidade inequívoca da nossa intervenção sobre a realidade. Assim, a reposta, e sua reprodução irrefletida, de boca em boca, serve aqueles que insistem em nos impor restrições: de um lado para garantir certa reserva de mercado, de outro para “nos colocar em nosso devido lugar”. Que lugar é esse e quem determina que ele nos é devido, é uma outra possível discussão.

Enfim, trata-se do translingüístico refletido na linguagem, a expressão de uma idéia de real cercando o potencial de transformação de seus agentes. Como as lentes através das quais eu enxergo o mundo são Dialéticas Históricas-Estruturais (DHE), penso que perguntas assim estão completamente fora de moda. Séculos depois do reconhecimento da ciência, já sabemos que nem tudo pode ser resolvido sob a luz da quantificação ou precisão; os fenômenos sociais especialmente.

Portanto, não quero, ou não posso dar conta desta pergunta. Prefiro responder por que fazemos o trabalho que fazemos, ou como o fazemos.

Li, recentemente uma entrevista com Paulo Fehlauer, publicada no site Jornalismo Digital, onde ele utiliza expressões como “arquitetura narrativa” e “narrativa hipermídia”.

Então, gosto de pensar que somos par dos narradores, que produzimos narrativas, escolhemos dados para compartilhar, histórias para contar, por meio das quais vemos reveladas nossa subjetividade e, portanto, também por meio das quais o sujeito leitor percebe a sua, como um exercício contínuo de alteridade que tem como magma a realidade social.

Seria bom se o fizemos nas margens: das palavras, das imagens, dos sons, enfim, da ideologia expressa pelo modo como esse conjunto de signos está arranjado, na sedimentação dos sentidos que carregam, subvertendo-a através das estruturas, das linguagens e da convergência.

Mas essa não é uma resposta completa.

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    "ao reescrever o que dissemos, protegemo-nos, vigiamo-nos, riscamos as nossas parvoíces, as nossas suficiências (ou insuficiências), as hesitações, as ignorâncias, as complacências; [...] a palavra é perigosa porque é imediata e não volta atrás; já a scriptação tem tempo à sua frente, tem esse tempo próprio que é necessário para a língua dar sete voltas na boca; ao escrever o que dissemos perdemos (ou guardamos) tudo o que separa a histeria da paranóia" (BARTHES, 1981, p.10).

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quem é a garota da vitrine?

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Sou formada em Radialismo e Jornalismo pela Universidade de Passo Fundo e desde 2004 atuo como professora dos cursos de Comunicação Social na mesma instituição. Ainda na UPF, fiz especialização em Leitura e Animação Cultural, e recentemente concluí o doutorado pela PUCRS. Sempre trabalhei com o universo radiofônico, pelo qual sou apaixonada. Gosto particularmente das suas aproximações com a arte. Minhas últimas descobertas de pesquisa rondam em torno da produção de sentido (em nível verbal e não-verbal) sob a perspectiva semiológica.

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lendo... só lendo e imaginando uma história da nossa suposta história...

Eu, robô de Isaac Asimov

de Brenda Rickman Vantrease sobre os poderes que se interdizem desde o início dos tempos.

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o que são scriptografias e outras escrivinhações?

O título deste blog foi inspirado nas observações feitas por Roland Barthes a cerca do processo de produção e significação dos textos que circulam pela prática social. Ele fala em scriptação, escrita, escritor e escrevente. No entanto, o nome scriptografias e outras escrivinhações, não passa de uma "licença" poética, por assim dizer, com o objetivo de nominar um espaço de livre expressão, em formatos e temas que fazem parte do meu cotidiano, assim como do cotidiano de quem por aqui passar.
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