diálogos VIII

Passo Fundo, 04 de outubro de 2011.
com Saramago, sobre a memória:

"Certos momentos há da vida que deveriam ficar fixados, protegidos do tempo, não apenas consignados, por exemplo, neste evangelho, ou em pintura, ou moderadamente em foto, cine e vídeo, o que interessava mesmo é que o próprio que os viveu ou tinha feito viver pudesse permanecer para todo o sempre à vista dos seus vindouros, como seria neste dia de hoje, irmos daqui até Jerusalém para vermos, com os nossos olhos visto, este rapazinho, Jesus filho de José, enroladinho na curta manta de pobre, a olhar as casa de Jerusalém e a dar graças ao Senhor por não ter sido ainda desta vez que perdeu a alma. Estando a sua vida no princípio, que são treze anos, é de prever que o futuro lhe haja reservado horas mais alegres ou tristes que esta, mais felizes ou desgraçadas, mais amenas ou trágicas, mas este é o instante que escolheríamos para nós, a cidade adormecida, o sol parado, a luz intangível, um rapazinho a olhar as casas, enrolado numa manta e com um alforge aos pés, e o mundo todo, o de perto e o de longe, suspenso, à espera. Não é possível, ele próprio já se moveu, o instante veio e passou, o tempo leva-nos até onde uma memória se inventa [...]"

Trecho de O evangelho segundo Jesus Cristo.

Sem pontos. Cem. E Saramago (re) escripta o imaginário coletivo. 


Atravessados pelas metáforas do tempo corrido, na narrativa do escritor, é essa a porção compartilhada da nossa memória que viramos do avesso por meio da leitura; o que diante da trama equivale dizer, seu lado direito.

Sim, porque, por mais espantoso que pareça, podemos tomá-la de qualquer lado: ao se realizar através do texto (este ou qualquer outro) a memória, e em particular, esta memória, aparentemente encarcerada pela repetição do discurso religioso ocidental, e desperta no livro, é revirada. Tal percepção ancora-se em duas evidências essenciais: 1) o tecido textual não tem um fim, nem fim nem preciosidade guardada pelo invólucro das camadas do produto de uma narrativa total. Diferente da Crítica, como era praticada tradicionalmente, obstinada em encontrar o sentido oculto por trás do texto, ele não existe, não há uma verdade a ser investigada. Seus significados, assim como da antiga preza que o autor (re)encara, são construídos a partir de seu próprio desenrolar, como um novelo de lã que não guarda nada dentro da maçaroca de fios para lhe dar consistência, mas são os próprios fios enrolados uns aos outros que formam o novelo. 2) Saramago é um marginal: caminha nas beiradas da linguagem, subverte os sentidos arrasando a estrutura. Sua escrita nos toma pela estranheza e acaba estabelecendo uma relação dialógica entre o abalo do significado de certos códigos e a fabricação da memória.

Daí compreendermos a frase que, ao longo da leitura, nos atravessa: "cuide deste rebanho todos os dias como se fosse a coisa mais importante que vai fazer na vida". A oração está na boca do Pastor, ajuizada, a certa altura da história, ao adolescente Jesus. O resultado é que o menino, depois de um ano, já não se encoraja a matar um carneiro; nem deste nem de outro agrupamento; nem para comer, nem para os sacrifícios de "obrigação". O que aconteceu? Nada; nada mais do que o tempo; nada além do estorno provocado pelos encontros e desencontros da história, aquela rotina ausente das tragédias ou vitórias, os fatos não contados entre os grandes eventos da vida de alguém. 

Por isso Saramago anota, ao falar da necessidade de verossimilhança de uma novela, que, embora nos interessem os fatos essenciais, nunca supomos que os momentos decisivos do destino da personagem protagonista se sucedam um após os outros, sem intervalos de tempo e demais ocorrências pitorescas. Contar o que aconteceu entre um passo e o seguinte agrega ambiência de realidade a narrativa, de modo que, no fim das contas, é a sucessão de cada um desses eventos que nos leva a compreender qualquer coisa que seja. São todos eles, não apenas os que decidimos principais, a estrutura que sustenta os significados construídos ao ler o livro, e, por metonímia, os sentidos das lembranças que guardamos.

Assim, se, superado o susto da pontuação, temos a impressão de estarmos diante de mais um trecho da reza, logo nos vemos novamente arvorados no meio da leitura. Isso porque, ao mesmo tempo em que (re)conta os caminhos do menino Jesus, o autor vai tecendo um metatexto que revela a sua crença na pluralidade da interpretação de um texto e nos equívocos da memória, que sempre podem ser inventados (para o bem e para o mal).

O resultado dessa proposição é que, a cada página virada, revirados ficam os nossos sentidos. Afinal, trata-se da invencionice de uma memória, dos significados de um texto ou de toda a história de uma vida? E que vida? Intuo que a resposta seja: a nossa, não a do menino Jesus, pois o sujeito se realiza no texto e o texto na leitura do sujeito, feito jogo de mão. Ao (re)inventar o imaginário sobre preza tão antiga, o autor possibilita a reinvenção de nós mesmos.

1 comentários:

Pablito disse...

Queri... quando li, na espreita dos cliques nômades da minha navegação, o título Diálogos VIII, minha memória fez "piii". Não mais que sem demora, meus olhos correram pelos velhos escritos que se quedam rocôditos na cama do presente, e a mãozinha deu um clique em Outubro de 2007: Diálogos I: ponta pé às infinitas trocas, iniciado com um questionamento de um vazio que escapa sorrateiro aos sentidos concretos; uma Mafalda reticente e um círculo vazio dentro, vazio fora.

Minhas saudades imemoráveis; minha saudades que se possibilitam reinventadas; minhas saudades que não palavras são; minhas saudades que passou, que é, que será?!?!

Beijoos

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    "ao reescrever o que dissemos, protegemo-nos, vigiamo-nos, riscamos as nossas parvoíces, as nossas suficiências (ou insuficiências), as hesitações, as ignorâncias, as complacências; [...] a palavra é perigosa porque é imediata e não volta atrás; já a scriptação tem tempo à sua frente, tem esse tempo próprio que é necessário para a língua dar sete voltas na boca; ao escrever o que dissemos perdemos (ou guardamos) tudo o que separa a histeria da paranóia" (BARTHES, 1981, p.10).

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Sou formada em Radialismo e Jornalismo pela Universidade de Passo Fundo e desde 2004 atuo como professora dos cursos de Comunicação Social na mesma instituição. Ainda na UPF, fiz especialização em Leitura e Animação Cultural, e recentemente concluí o doutorado pela PUCRS. Sempre trabalhei com o universo radiofônico, pelo qual sou apaixonada. Gosto particularmente das suas aproximações com a arte. Minhas últimas descobertas de pesquisa rondam em torno da produção de sentido (em nível verbal e não-verbal) sob a perspectiva semiológica.

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