a naturalização da barbárie

Sexta-feira, 15 de maio de 2009.
Postado por Bibiana Friderichs às 15:10.

O que me espanta é a capacidade humana de cometer horrores.
Mas mais do que isso, o que me espanta é o horror naturalizado pela constância.

Há dias atrás discutíamos, eu e alguns amigos, em volta de uma mesa transparente, o poder da arte. Ela e a religião parecem ser a evidência de nossa porção transcendente, aquela porção que distingue o homem de todos os outros animais, uma vez que esses dois universos revelam o nosso potencial de abstração e, conseqüentemente, nossa racionalidade. Sim, porque de resto, todos comem e dormem, mantêm relações sexuais e reproduzem, inclusive andam em “bandos”. Mas quantos animais têm a capacidade de abstrair e colocar as coisas no lugar em que colocamos a música, o cinema, a pintura ou a fé. Quantos são capazes de significar o intangível? Ou transformar o intangível em produto/objeto de significação?
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No entanto, ontem, durante a palestra de um documentarista congolês, onde ouvi um relato sobre a Guerra Civil na República Democrática do Congo, nem a arte nem a religião fizeram sentido para mim. Estupro, canibalismo e tortura. Sem contar com a fome, a doença, o desabrigo e toda a ordem de misérias advindas da invasão (cultural, política, econômica, física) e da violência.
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Vi e ouvi um relato, feito sem sobressaltos, que apontava para a degradação do estado de humanidade. Mas o palestrante explicou tudo, explicou de que modo tamanho horror se consolida:
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“Quando alguém é aliciado, ainda na primeira infância, a integrar milícias como as que se formaram no Congo, na vida jovem ou adulta não têm alternativas. Cresce sendo estimulado a matar, a ferir, a estuprar e a torturar e por fim passa a reproduzir este comportamento. Então, chega em casa e violenta a própria mãe.”
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Não parece haver no comportamento desses antagonistas retratados pelo congolês, preocupação com algum tipo de moral ou ética, sentidos que nos tornam tão humanos. Eles são incapazes de qualquer transcendência. Mas seriam apenas eles? Quantos homens ainda são humanos no mundo?
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1 comentários:

"Inquieta" disse...

animais...muitos de nós não negam...

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    "ao reescrever o que dissemos, protegemo-nos, vigiamo-nos, riscamos as nossas parvoíces, as nossas suficiências (ou insuficiências), as hesitações, as ignorâncias, as complacências; [...] a palavra é perigosa porque é imediata e não volta atrás; já a scriptação tem tempo à sua frente, tem esse tempo próprio que é necessário para a língua dar sete voltas na boca; ao escrever o que dissemos perdemos (ou guardamos) tudo o que separa a histeria da paranóia" (BARTHES, 1981, p.10).

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Sou formada em Radialismo e Jornalismo pela Universidade de Passo Fundo e desde 2004 atuo como professora dos cursos de Comunicação Social na mesma instituição. Ainda na UPF, fiz especialização em Leitura e Animação Cultural, e recentemente concluí o doutorado pela PUCRS. Sempre trabalhei com o universo radiofônico, pelo qual sou apaixonada. Gosto particularmente das suas aproximações com a arte. Minhas últimas descobertas de pesquisa rondam em torno da produção de sentido (em nível verbal e não-verbal) sob a perspectiva semiológica.

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O título deste blog foi inspirado nas observações feitas por Roland Barthes a cerca do processo de produção e significação dos textos que circulam pela prática social. Ele fala em scriptação, escrita, escritor e escrevente. No entanto, o nome scriptografias e outras escrivinhações, não passa de uma "licença" poética, por assim dizer, com o objetivo de nominar um espaço de livre expressão, em formatos e temas que fazem parte do meu cotidiano, assim como do cotidiano de quem por aqui passar.
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