Mau exemplo... (diálogos IX)


com Lúcia Guimarães, sobre o diploma de jornalista

Aos que concordam com o texto de Lúcia peço desculpa pela insistência, mas sou obrigada a me opor, total e integralmente, a ele (a redundância é proposital).

Repeti inúmeras vezes em sala de aula, e sigo lembrando cada vez que o assunto vem à baila, que não sou a favor da obrigatoriedade do diploma, mas sim da obrigatoriedade do processo de formação.

Hoje, do modo como a legislação foi aprovada, qualquer um, qualquer um mesmo, pode ser jornalista. Tendo ou não o primeiro grau completo, sabendo ou não escrever, basta que a empresa lhe ateste a habilidade e temos mais um registro expedido por aí. Sim, e tenho visto isso acontecer inúmeras vezes, em especial para pessoas que sequer deveriam chegar perto da redação de um jornal, emissora de rádio ou televisão, pois legislam em causa própria.

Ao ler o trecho “Jornalista deve estudar, acima de tudo, português e se educar em história, literatura, economia, ciência, filosofia e ciência política”, me pergunto: onde será que todo este conteúdo, toda essa bagagem referencial, será construído e/ou ampliado se eliminarmos a graduação? Uma péssima experiência em determinada escola de comunicação não pode servir de exemplo para a eliminação imediata de todo um processo de construção da consciência do lugar social de uma profissão e dos seus profissionais. Existem péssimas escolas de medicina, de direito, de pedagogia, e nem por isso sugerimos que elas sejam eliminadas, ou a obrigatoriedade do diploma seja questionada para o exercício de determinadas funções.

Além disso, o jornalismo não é apenas uma área de trabalho atravessada por outras disciplinas (que devemos, portanto, minimamente conhecer), mas o trabalho de construção/reprodução de um discurso constituído pela conjunção dos campos simbólicos da experiência cotidiana. Nossa matéria-prima é a linguagem, e o modo como a utilizamos pode reforçar ou transformar o mundo que nos cerca. Por isso, toda vez que a sociedade muda, muda a linguagem que ela utiliza, ou vice-versa. Onde vamos adquirir essa consciência e qual é o processo que vai nos colocar a par de nossa responsabilidade?

Eu nunca acreditei que a faculdade nos preparasse para o mercado. Minha crença se estabeleceu no potencial que um grupo de sujeitos, concentrados especificamente nisso e dedicados a acordar debates sobre o assunto, têm de apontar direções (múltiplas), inquietar aprendizes, reconstruir. Para mim a graduação em jornalismo é isso; uma coisa que as redações e a corrida contra o relógio, não permitem. Já presenciei muito jornalistas serem engolidos pela factualidade do mundo. Já vi muita gente que foi para o “mercado” e nunca mais pode estudar literatura, economia, ciência, filosofia, política, ficando, consequentemente, preso a uma percepção generalizada e pontual da história.

Além disso, suspeito muito de alguém que pergunta o que perguntou Lúcia Guimarães em seu texto:  O que tem a democracia a ver com a profissionalização do jornalista? Bem se vê que ela não levou a faculdade a sério, se tivesse saberia que junto com a profissionalização, vem uma técnica do bem escrever, a sabedoria do que respeitar, as discussões éticas próprias desse fazer. Também saberia ela a diferença entre um jornalista e “qualquer um munido de smart phone”. Trata-se da diferença dos objetivos: suas preocupações, suas demandas podem ser completamente diferentes. “Qualquer um” pode publicar qualquer coisa, seu único compromisso é consigo próprio. Já o jornalista não pode, ele tem que publicar aquilo que diz respeito e é relevante para vida em sociedade, para a preservação da igualdade e da justiça social, embora, devo admitir, muitos jornalistas diplomados esqueçam isto. Assim como alguns advogados e outros tantos médicos também ignoram os juramentos que fizeram. Mas, como no caso das escolas, maus profissionais não justificam a fim da profissionalização.

É um debate aberto, não sou contra os bons argumentos e já ouvi muitos sobre esta questão, inclusive contrários aos meus. Respeito-os. Mas não venha querer justificar decisões políticas (não políticas partidárias, mas daquelas que dizem respeito a ordem das coisas no mundo) com maus exemplos. Eliminar a obrigatoriedade do processo de formação para jornalista é o mesmo que proibir os professores das escolas públicas de reprovar alunos.

“Todo sistema de educação é uma maneira política de manter ou de modificar a apropriação dos discursos, com os saberes e os poderes que eles trazem consigo” (Michel Foucault).

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    "ao reescrever o que dissemos, protegemo-nos, vigiamo-nos, riscamos as nossas parvoíces, as nossas suficiências (ou insuficiências), as hesitações, as ignorâncias, as complacências; [...] a palavra é perigosa porque é imediata e não volta atrás; já a scriptação tem tempo à sua frente, tem esse tempo próprio que é necessário para a língua dar sete voltas na boca; ao escrever o que dissemos perdemos (ou guardamos) tudo o que separa a histeria da paranóia" (BARTHES, 1981, p.10).

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Sou formada em Radialismo e Jornalismo pela Universidade de Passo Fundo e desde 2004 atuo como professora dos cursos de Comunicação Social na mesma instituição. Ainda na UPF, fiz especialização em Leitura e Animação Cultural, e recentemente concluí o doutorado pela PUCRS. Sempre trabalhei com o universo radiofônico, pelo qual sou apaixonada. Gosto particularmente das suas aproximações com a arte. Minhas últimas descobertas de pesquisa rondam em torno da produção de sentido (em nível verbal e não-verbal) sob a perspectiva semiológica.

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