Djanira: um portal sobre o papel dos professores

Há cerca de duas semanas, fui com meu filho de 04 anos numa roda de samba, organizada pelo Grupo Ritornelo de Teatro. Lá, para minha surpresa, encontrei a professora Djanira. Surpresa, porque ela foi minha professora na 6ª, 7ª e 8ª série, há quase 30 anos, e a vi poucas vezes depois disso. Mas ela estava lá, com toda a sua força e sua negritude, e nos presenteou com sua voz.

Para mim foi uma oportunidade única, bem a tempo (falecida em julho de 2019, cerca de um ano atrás). Quando a vi, fiquei tão contente, que tive de me aproximar e dizer, rapidamente: "- oi professora, que bom lhe ver, fui sua aluna no IE". Ela me olhou, sorriu e disse: - eu lembro.

Não sei exatamente se ela lembrou mesmo ou não, mas não importa. Djanira foi professora de muita gente, e toda essa gente teve a oportunidade de aprender com ela, aprender uma paixão pela vida, a força da natureza de quem somos, aprender a olhar para dentro, enxergar o nosso potencial.

Para uma menina bugra do interior, filha de professores, em escola particular, muito estudiosa e acuada diante da diferença social, financeira e cultural que havia entre ela e os colegas, diante do bullying naturalizado, só a presença e o brilho dessa professora já eram suficientes. Mas Djanira foi além: ela me incentivou a entrar para o coro da escola, a fazer teatro, me preparou para provas de poesia e oratória da Olimpíada Metodista, e esteve presente para conversas permanentes. Ficava sempre numa sala ótima, no miolo do "rendondão".

Foi o teatro que me ajudou a pagar a minha faculdade, anos depois. Hoje sou Diretora de uma Faculdade de Artes e Comunicação. Tenho a plena consciência do papel indelével dos professores na minha formação: da professora Leocí, da primeira série; da amada professora da minha terceira série, uma senhora de óculos baixos e voz amorosa; da professora Leonir, diretora da minha escola primária, São João, que me recebia compreensivamente em sua sala, inúmeras vezes; da professora Tania Maria Von Meusel (Escola de Ensino Fundamental St. Patrick), minha professora no Magistério, que fez meus olhos brilharem falando de aprendizagem e com quem, hoje, compartilho a formação do meu filho; das professoras Cilene Maria Potrich e Tania Mariza Kuchenbecker Rosing, que nunca me deram aula em sala de aula, mas me ensinaram muito, de formas que eu nem consigo mensurar (sem dúvida, mulheres a frente do seu tempo); do professor César Augusto Azevedo dos Santos, meu Amado Mestre, que guiou meus passos na pesquisa e na docência, que mostrou que aprendemos juntos; do professor Benami Bacaltchuk, que sempre confrontou carinhosamente, mas incansavelmente, as minhas certezas, porque é fazendo perguntas que movemos o mundo (e ele sabe disso); do professor Roberto Ramos, meu herói na investigação acadêmica e na descoberta das evidências de que a produção de conhecimento científico tangibiliza o cotidiano, o ressignifica, e na revelação de que fazer pesquisa é um ato político; e de muitos professores nessa trajetória, que não mencionei aqui. Sobretudo, dos meus pais, Dolores Barbosa de Paula e Vlademir Alexandre Menegaz, que além de serem meus pais e a força da minha existência, são de profissão, professores, professores que fizeram a diferença na vida de muita, mas muita gente, professores de quem tenho o mais profundo orgulho.

Além da história particular que tenho com a professora Djanira, naquela noite de samba, e hoje, escrevendo este texto, ela também foi/é, para mim, um portal. Um portal através do qual enxergo, mais uma vez, todos esses professores, e, mais do que isso, enxergo e tangibilizo o inextinguível papel dos professores na vida das pessoas, como fontes de inspiração, como faróis numa noite escura, em meio ao desconhecido, que é como todo futuro (e, as vezes, o próprio presente) pode parecer.

Djanira foi uma professora que fez a diferença na minha vida, assim como provavelmente fez a diferença na vida de muitas, muitas outras pessoas, na sala de aula ou fora dela. Agora ela se foi. Mas sua partida não deixa um vazio, deixa um legado. Obrigada, professora.
A foto roubartilhei do face do filho dela, Odorico.

Diálogo XII - com os professores

Há cerca de duas semanas, fui com meu filho de 04 anos numa roda de samba, organizada pelo Grupo Ritornelo de Teatro. Lá, para minha surpresa, encontrei a professora Djanira. Surpresa, porque ela foi minha professora na 6ª, 7ª e 8ª série, há quase 30 anos, e a vi poucas vezes depois disso. Mas ela estava lá, com toda a sua força e sua negritude, e nos presenteou com sua voz. 

Para mim foi uma oportunidade única, bem a tempo. Quando a vi, tive de me aproximar e dizer, rapidamente: "- oi professora, que bom lhe ver, fui sua aluna no IE". Ela me olhou, sorriu e disse: - eu lembro.

Não sei exatamente, se ela lembrou mesmo ou não, mas não importa. Djanira foi professora de muita gente, e toda essa gente teve a oportunidade de aprender com ela, aprender uma paixão pela vida, a força da natureza de quem somos, aprender a olhar para dentro, enxergar o nosso potencial.

Para uma menina bugra do interior, filha de professores, em escola particular, muito estudiosa e acuada diante do abismo da diferença social, financeira e cultural que havia entre ela e os colegas, diante do bullying naturalizado, só a presença e o brilho dessa professora já era suficiente. Mas Djanira foi além: ela me incentivou a entrar para o coro da escola, a fazer teatro, me preparou para provas de poesia e oratória da Olimpíada Metodista, e esteve presente para conversas permanentes. Fica sempre numa sala ótima, no miolo do "rendondão".

Foi o teatro que me ajudou a pagar a minha faculdade, anos depois. Hoje sou Diretora de uma Faculdade de Artes e Comunicação. Tenho a plena consciência do papel indelével dos professores na minha formação: da professora Leocí, da primeira série; da amada professora da minha terceira série, uma senhora de óculos baixos e voz amorosa; da professora Leonir, diretora da minha escola primária, São João, que me recebia compreensivamente em sua sala, inúmeras vezes; da professora Tania Maria Von Meusel (Escola de Ensino Fundamental St. Patrick), minha professora no Magistério, que fez meus olhos brilharem falando de aprendizagem; das professoras Cilene Maria Potrich e Tania Mariza Kuchenbecker Rosing, que nunca me deram aula em sala de aula, mas me ensinaram muito, de formas que eu nem consigo mensurar (sem dúvida, mulheres a frente do seu tempo); do professor César Augusto Azevedo dos Santos, meu Amado Mestre, que guiou meus passos na pesquisa e na docência, que mostrou que aprendemos juntos; do professor Benami Bacaltchuk, que sempre confrontou carinhosamente, mas incansavelmente, as minhas certezas, porque é fazendo perguntas que movemos o mundo (e ele sabe disso); e de muitos professores nessa trajetória, que não mencionei aqui. Sobretudo, dos meus pais, Dolores Barbosa de Paula e Vlademir Alexandre Menegaz, que além de serem meus pais e a força da minha existência, são de profissão, professores, professores que fizeram a diferença na vida de muita, mas muita gente, professores de quem tenho o mais profundo orgulho.

Além da história particular que tenho com a professora Djanira, naquela noite de samba, e hoje, escrevendo este texto, ela também foi/é, para mim, um portal. Um portal através do qual enxergo, mais uma vez, todos esses professores, e, mais do que isso, enxergo e tangibilizo o inextinguível papel dos professores na vida das pessoas, como faróis numa noite escura, em meio ao desconhecido, que é como todo futuro (e as vezes o próprio presente) pode parecer.

Djanira foi uma professora que fez a diferença na minha vida, assim como provavelmente fez a diferença na vida de muitas, muitas outras pessoas, na sala de aula ou fora dela. Agora ela se foi. Mas sua partida não deixa um vazio, deixa um legado. Obrigada, professora.


Voto por nós (eleições 2018)

Nos últimos dias, assisti, estarrecida, juízes regionais determinando o recolhimento de faixas (que ñ traziam o nome de nenhum candidato) e proibindo manifestações estudantis; 2. policiais invadindo universidades, interrogando professores, interrompendo aulas, palestras e recolhendo materiais; 3. vi, no trajeto do meu cotidiano, frases escritas em muros e paredes que não imaginei mais possíveis neste momento, frases que pregavam o preconceito e o desrespeito; 4. ouvi, de pessoas próximas, relatos de doer o coração sobre situações de intimidação verbal e física diante daquele considerado divergente, diferente, distinto e diverso; e, 5. presenciei (ninguém me contou) a agressividade de apoiadores do Bolsonaro ao encontrar, ou procurar, pessoas ou grupos que deles divergiam. Assisti, vi, ouvi, presenciei... e tive medo. Todas situação que ferem o estado de direito.

O processo eleitoral desencadeado pelo discurso arbitrário de Jair Bolsonaro autorizou a barbárie, o preconceito, a ideia de faxina social, de abuso do poder, e abriu uma caixa de Pandora que, ainda que ele perca, não vai ser fechada rapidamente. Daqui, para os anos seguintes, vamos colher e sofrer com a circulação desses discursos e fazeres, que se sentem, agora, autorizados e fortalecidos.

Mas como na história do mito grego, Pandora deixou escapar todos os males do mundo, menos a "esperança". E é alimentada pela capacidade humana de manter-se perseverante, mesmo quando as situações se mostram bastante adversas, é que eu não desanimo.

Amanhã voto pelo povo brasileiro, pelo direito de voz (até para ser oposição se necessário for, porque sou crítica e não concordo com a cafajestada que o PT fez com a história política do país). Amanhã voto num professor, como eu. Voto pela democracia, pela pluralidade de vozes, pela liberdade de expressão, por um Brasil pautado pela justiça social, pela igualdade e pela diversidade. Amanhã voto pautada pelos princípios da minha formação, como cidadã, pelos princípios da minha profissão, como jornalista e professora. Voto pelo futuro do país onde quero que meu filho cresça. Voto por nós.

#elenão
#Haddadsim
#HaddadeManu
#Haddad13
#viravoto

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Sobre meu voto no segundo turno, a quem interessar possa (eleições 2018):

Não vou abandonar as minhas críticas ao PT, minha crítica a sua negação e falta de autocrítica. Na minha percepção o comportamento do partido envergonhou a história democrática desse país, história essa que ajudou a construir. 

Entretanto, quando em 1996 passei a acompanhar o PT, o fiz porque, na época, entendi que ele representava um conjunto de ideias, de princípios, de valores que eu nutria e com os quais compactuava. O partido, como instituição política me decepcionou profundamente, mas eu ainda cultivo aquelas ideias, ideias de um Brasil que eu quero para mim, que eu sonho para os brasileiros. Por isso, apesar de o partido ter falhado, das pessoas, dos líderes terem falhado (porque uma instituição assim é feita de pessoas), neste momento vou apoiá-lo novamente e votar no Haddad. 


Vou fazer isso porque acredito que a história também pode ensinar a este partido uma boa lição, e nós, nós podemos ser vigilantes quanto a isso. Mas mesmo nas falhas, o PT nunca me traiu quanto a oportunidade às minorias, a proteção dos Direitos Humanos e ao respeito a diversidade: valores essenciais... por isso acho que merece, neste cenário, meu voto de confiança. 

Digo nesse cenário porque, por outro lado, não posso eleger, ou ajudar a eleger (com minha negação), alguém que claramente fere esses princípios, os princípios da dignidade humana. Porque por enquanto (e digo isso já duvidando) essa violência está apenas nas palavras mal postas, na truculência da fala. Mas se o elegermos, estamos passando um atestado de que isso pode, além de um discurso, virar um fazer. Estaremos passando um atestado de que isso pode e de que todos estão autorizados a falar/fazer assim. 

Na escola onde eu estudei, aprendi direitinho que o discurso é uma arma, um poder para construir realidades. Aprendi nesta escola, que o mundo é o que gente diz que ele é. E eu ñ posso permitir, e se não puder evitar, eu não posso aceitar, esse mundo dito pelo Bolsonaro. Minha palavra de ordem agora é RESISTIR. E resistir agora, é votar 13.

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Sobre minha mãe

A minha mãe é demais, e como Vó é um barato😎! Mas o mais legal, é que a minha mãe é uma vó que ainda me deixa ser filha. Quando a gente vira mãe, o mundo vira de cabeça para baixo, e no meio dessa bagunça que vira a vida, da preocupação de cuidar de alguém, é muito bom ter alguém que cuida gente. A minha mãe é daquelas que ainda diz: “leva um casaco”, “vê se come direito”, “tá com olheira, vai descansar”. E ela também faz comidinhas gostosas pensando em mim, me liga quando tem promoções no supermercado (💸kkkk), me lembra das consultas médicas e dos lugares onde eu guardei as coisas (as vezes, sou esquecida kkkk). Ela sempre sabe quando eu preciso de algo (especialmente ajuda, colo ou chamada de atenção) e misteriosamente meu celular toca, bem na hora que eu peguei para ligar para ela, ou recebo um zapzap (já perdi a conta das vezes que isso aconteceu). E é claro, tudo isso reflete no Pedro, o filho da filha ❤️. Te amo demais mãe.


Da série: #oconjuntoqueapavora


E, sobre algo que li hoje, “Se você não está com medo, você não entendeu.”

1. Rio de Janeiro. Marielle Franco: mulher, negra, vereadora, relatora da Intervenção no RJ. Executada com 4 tiro na quarta-feira, dia 14 de março de 2018. https://oglobo.globo.com/…/vereadora-marielle-franco-assass…

2. Brasília. Mikael Tavares de Medeiros: jovem de 19 anos, ensino médio concluído (com recuperação), experiência como vendedor de óculos, nomeado pelo Ministério do Trabalho para coordenar a área de recursos logísticos, o que inclui a responsabilidade de controlar contratos milionários. Caso revelado no dia 09 de março de 2018. https://g1.globo.com/…/jovem-de-19-anos-administra-contrato…

3. São Paulo. Servidores públicos, na maioria, professores municipais, protestam em frente a Câmara de Vereadores contra o projeto de reforma da previdência municipal. O tumulto começou quando os manifestantes foram proibidos de entrar na Casa e uma bomba foi lançada de dentro da Câmara em direção dos manifestantes. 14 de março de 2018. http://sao-paulo.estadao.com.br/…/geral,protesto-de-profess…

4. Passo Fundo. Câmara de Vereadores aprova lei que barra a operação do Uber na cidade e colide com o Marco Civil da Internet. 9 de março de 2018. http://www.onacional.com.br/…/lei+municipal+barra+a+operaca…

5. Passo Fundo. Durante uma desocupação de famílias Kaigans de uma área do DNIT, policiais militares atiram 10 balas de borracha na perna de um dos líderes da comunidade, Querino Carvalho. 17 de fevereiro de 2018. https://www.cimi.org.br/…/policia-militar-agride-e-tortura…/

Uma carta para Pedro (diálogo XI)

Filho, te escrevo hoje porque, talvez, daqui há alguns anos, quando puderes compreender, terei perdido as palavras para falar do agora. Te escrevo hoje, porque hoje é o teu aniversário, e só o hoje tem esse sabor de presente, um sabor que quero suspender no tempo, um sabor que quero saber e compartilhar contigo para todo o sempre. Te escrevo para prender na escritura o calor que amor(na) minha vida desde que chegaste. Um calor de cobertor leve em dia de chuva, um calor de corpo que aquece, um calor de aconchego, um calor de amor que está sempre por perto, correndo pela casa. Um calor de verão ensolarado, para brincar na beira do rio ou do mar, para rolar na grama das praças, para comer fruta gelada. Por isso, teus sorrisos fazem dos meus dias brisa, e tuas febres, dos meus dias angústia. Mudaste não apenas o centro de gravidade do meu corpo, mas se converteste em centro, um centro em torno do qual orbito, fascinada.

Te observo, por exemplo, repetidas vezes, acordar de manhã e sair pelo apartamento procurando o gato só para perguntar-lhe: "tudo bem Iggy, você está bem?", mesmo sabendo que o bicho não vai lhe oferecer uma resposta convencional, e te amo todas as vezes por isso. Te amo quando, como por encantamento, conecta-se com algum desconhecido na rua ou numa história, para sentir: "mamãe, a moça está triste", ou quando conclui que está se divertindo com algo: "que legal! uau". Te amo quando, entre uma brincadeira e outra, sempre volta para os instrumentos musicais. Não importa se são de metal, madeira, plástico, isopor ou lata. Não importa se produzem um som real ou de faz de conta. O importante é toca-los. Te amo quando o capricho da vida nos permite passar muito tempo juntos, e então ganho muitos abraços espontâneos e sorrisos de amor. Aliás, amo o teu riso fácil, e as espiadas com o canto do olho. Amo quando te disfarças de gente crescida para apoiar a mão no queixo, ou os braços na cintura e fazer caras e bocas. Amo quando tira do bolso expressões ou frases surpreendentes e engraçadas, sempre na hora certa: "ups", "que chato", "boa ideia", "você é uma gatona mamãe" (hehehe). Te amo ao perceber que te perdes por alguns minutos no mundo da imaginação e brincas contigo mesmo, ou quando transforma um degrau na soleira de uma porta em sofá e o reflexo da lataria de um carro em televisão, esticando o braço e dizendo: "pip, pronto, liguei a TV mamãe". Qualquer lugar é lugar, tudo é novidade, tudo ainda pode ser brincadeira. "Porque vc parou Pedro?", "para olhar se vem carro, mãe". Amei o dia em que você, sei lá por qual razão, trocou o "mamãe" pelo "mãe". Não vou esquecer: era domingo, 28 de maio. Amo a tua generosidade, que gosta de cavalos, como o vovô Menegaz, de trens, como o vovô Darci, de skate, como o papai, de livros, como a mamãe, ou de plantas como a vovó Dodoi. Uma generosidade que te permite compartilhar, especialmente, e com cada um, aquilo que lhe desperta amor.

E te tanto te amar, meu menino, meus desejos para ti transbordam. Desejo que conserve uma medida saudável desse sorriso ingênuo e alegre que carrega nos olhos, e outra medida equilibrada desse moleque arteiro e persistente. Desejo que o bom senso te acompanhe, assim como a integridade e a ética. Desejo que saiba ver e ouvir o outro, reconhecer e, sobretudo, celebrar a diferença. Que esteja ao lado da liberdade, de escolha e de voz, assim como da igualdade, daquilo que nos une como humanos. Desejo que aprenda a respeitar o meio ambiente e valorizar a natureza como lugar e abrigo de todos os seres vivos. Desejo que cultive a leitura como prática cotidiana, que conheça a História (a tua, a dos outros e a do mundo) e que defenda as Artes e a diversidade cultural. Desejo que conheça pessoas e as perceba em sua complexidade, e que teu coração possa vibrar em cada um desses encontros. Desejo que tua imaginação frutifique, ao mesmo tempo em que tuas raizes se fortaleçam no mundo vivido: coisas lindas e transformadoras podem vir desse cruzamento! Desejo tudo isso hoje e desejo tudo isso sempre! Feliz aniversário meu amor.

Texto publicado originalmente em junho de 2017.

do extraordinário...

Passo Fundo, 01 de abril de 2014.

Agora à noite vivenciei uma experiência extraordinária... uma experiência igual àquelas de que tanto falo em aula, sobre a forma como nossa presença pode se expandir através da rede, embora ao mesmo tempo, faça do real representação, e da presença uma quase ausência.

E não digo (extra)ordinária só pela experiência estética, mas pela oportunidade única de vive-la, e de tê-la feito para ser atravessada por um discurso agudo, singular e polissêmico sobre o Brasil que se transforma; mas também sobre um Brasil que se sustenta ancorado no mesmo de sempre (com o perdão da redundância), um Brasil do ontem, do hoje e do amanhã.

“Hoje, dia 1º. de abril, às 21h30, o Teatro Oficina – símbolo e palco de revoluções libertárias, tanto na década de 1960 quanto agora – recebe o público para a leitura viva e encenada da peça poema Walmor y Cacilda 64 – O RoboGolpe, escrita por José Celso Martinez Corrêa e recriada pela Associação Teat®o Oficina Uzyna Uzona para reinterpretar os fatos da história recente e atual do Brasil, transmutados em vida teatral. A SESSÃO ÚNICA é parte integrante da Vigília pela Liberdade, projeto da Companhia de Teatro Os Satyros que envolve diversas companhias teatrais paulistas, convidadas para transformar em obra de arte suas visões sobre os 50 anos do Golpe Militar.”

Essa apresentação única foi toda transmitida ao vivo, pela rede, desde os bastidores, horas antes do espetáculo, até a despedida da plateia.

Parece algo comum, já que atualmente muitas coisas são transmitidas via web em tempo real, mas aqui vemos a convergência de muitas linguagens (a do teatro, a do vídeo, a da fotografia e a da rede). Mais do que isso, a câmera na mão acompanhando cada movimento das personagens em cena, tal qual o olho do espectador, nos faz sentir parte da plateia: lá, e ao mesmo tempo aqui. Converte a experiência do real em representação, e da representação em real mais uma vez, modificando nossa relação com o tempo, com o espaço e nossa sensibilidade diante do mundo.

Não sei dizer bem, mas tudo isso mexeu comigo.


Talvez porque estivéssemos falando de Zé Celso, talvez e, sobretudo, porque estamos falando do Brasil, talvez e, principalmente, porque estamos falando de nós.

Das coisas que aprendemos

Passo Fundo, 08 de março de 2013.

Acabei de assistir ao documentário “Tropicália”, de Marcelo Machado. Suspirei um pouco, ri um pouco, chorei um pouco e lembrei porque documentários são feitos e porque escolhi ser jornalista.


Em certo momento, durante o filme, Caetano aparece (no auge do Tropicalismo) sendo vaiado, enquanto canta "É proibido proibir". Diante do público inquieto, derrama:
- "se vocês forem em política como são em estética, estamos feitos."

Essa frase me atravessou (e o que somos senão sujeitos construídos por atravessamentos?). O extraordinário de ouvi-la hoje, é que permite compreender como, mesmo quase quarenta anos depois, sua música, sua arte e as dinâmicas disparadas pelo grupo tropicalista ainda podem ser ressignificadas.

Sim, porque penso que poderíamos repetir o axioma do artista diante do cenário estético e político do Brasil hoje. Mais do que isso, temo que Caetano tenha previsto o futuro.

Vejo abismada que nossos eleitos são tão corruptos, fracos ou incompetentes quanto o gosto musical predominante. Gosto esse pautado por um tipo de canção, cujas letras promovem a objetivação da mulher, degradam seu papel social, e reproduzem/fortalecem um estereótipo, que historicamente tentamos desconstruir, e que eu não gostaria de deixar de herança para ninguém.

Bingo. É para isso que servem os documentários, e é para isso que serve o Jornalismo. Para não nos deixar esquecer, nos acordar para o passado, para estabelecer conexões, para nos lembrar de que a história é cíclica, polissêmica, e que ao olhar para ela temos a oportunidade de compreender o presente e antecipar/transformar o futuro. 

Diálogos X



Acredito que nossas bravatas, nossas crenças e, consequentemente, quem somos é uma coleção de sentidos construídos e compartilhados ao longo da trajetória que percorrermos.  Por isso, só posso falar do Mundo da Leitura com afeto. Nossa história (a minha, a do Centro e a do grupo com quem trabalhei) é feita de atravessamentos, de trocas, de sentidos comungados. 

Lembro, com a nostalgia guardada para todas as boas experiências, de fazer parte de uma pequena equipe de pessoas, generosas e comprometidas, guiadas por uma mulher à frente de seu tempo, cuja fé na arte, na educação e, sobretudo na leitura, nos mobilizava. Não apenas na leitura do texto literário, mas dos múltiplos documentos, em diferentes linguagens, que circulam pelo cenário social. Um mulher obstinada pela leitura do mundo, que em última análise pode transformá-lo. 

Como disse, certa vez, Bartolomeu Campos Queirós: 

“Quem sabe assim ler, eu pensava, não carrega medo em suas andanças. Quem decifra o livro da natureza ganha de todos em coragem. E o menino, por assim bem ler, tinha a escrita na ponta dos dedos: pescava, remava, tecia, colhia, plantava e amava”. 

Tenho orgulho de ter feito parte deste projeto e me encho de felicidade ao saber que ele já está fazendo 15 anos!

Mau exemplo... (diálogos IX)


com Lúcia Guimarães, sobre o diploma de jornalista

Aos que concordam com o texto de Lúcia peço desculpa pela insistência, mas sou obrigada a me opor, total e integralmente, a ele (a redundância é proposital).

Repeti inúmeras vezes em sala de aula, e sigo lembrando cada vez que o assunto vem à baila, que não sou a favor da obrigatoriedade do diploma, mas sim da obrigatoriedade do processo de formação.

Hoje, do modo como a legislação foi aprovada, qualquer um, qualquer um mesmo, pode ser jornalista. Tendo ou não o primeiro grau completo, sabendo ou não escrever, basta que a empresa lhe ateste a habilidade e temos mais um registro expedido por aí. Sim, e tenho visto isso acontecer inúmeras vezes, em especial para pessoas que sequer deveriam chegar perto da redação de um jornal, emissora de rádio ou televisão, pois legislam em causa própria.

Ao ler o trecho “Jornalista deve estudar, acima de tudo, português e se educar em história, literatura, economia, ciência, filosofia e ciência política”, me pergunto: onde será que todo este conteúdo, toda essa bagagem referencial, será construído e/ou ampliado se eliminarmos a graduação? Uma péssima experiência em determinada escola de comunicação não pode servir de exemplo para a eliminação imediata de todo um processo de construção da consciência do lugar social de uma profissão e dos seus profissionais. Existem péssimas escolas de medicina, de direito, de pedagogia, e nem por isso sugerimos que elas sejam eliminadas, ou a obrigatoriedade do diploma seja questionada para o exercício de determinadas funções.

Além disso, o jornalismo não é apenas uma área de trabalho atravessada por outras disciplinas (que devemos, portanto, minimamente conhecer), mas o trabalho de construção/reprodução de um discurso constituído pela conjunção dos campos simbólicos da experiência cotidiana. Nossa matéria-prima é a linguagem, e o modo como a utilizamos pode reforçar ou transformar o mundo que nos cerca. Por isso, toda vez que a sociedade muda, muda a linguagem que ela utiliza, ou vice-versa. Onde vamos adquirir essa consciência e qual é o processo que vai nos colocar a par de nossa responsabilidade?

Eu nunca acreditei que a faculdade nos preparasse para o mercado. Minha crença se estabeleceu no potencial que um grupo de sujeitos, concentrados especificamente nisso e dedicados a acordar debates sobre o assunto, têm de apontar direções (múltiplas), inquietar aprendizes, reconstruir. Para mim a graduação em jornalismo é isso; uma coisa que as redações e a corrida contra o relógio, não permitem. Já presenciei muito jornalistas serem engolidos pela factualidade do mundo. Já vi muita gente que foi para o “mercado” e nunca mais pode estudar literatura, economia, ciência, filosofia, política, ficando, consequentemente, preso a uma percepção generalizada e pontual da história.

Além disso, suspeito muito de alguém que pergunta o que perguntou Lúcia Guimarães em seu texto:  O que tem a democracia a ver com a profissionalização do jornalista? Bem se vê que ela não levou a faculdade a sério, se tivesse saberia que junto com a profissionalização, vem uma técnica do bem escrever, a sabedoria do que respeitar, as discussões éticas próprias desse fazer. Também saberia ela a diferença entre um jornalista e “qualquer um munido de smart phone”. Trata-se da diferença dos objetivos: suas preocupações, suas demandas podem ser completamente diferentes. “Qualquer um” pode publicar qualquer coisa, seu único compromisso é consigo próprio. Já o jornalista não pode, ele tem que publicar aquilo que diz respeito e é relevante para vida em sociedade, para a preservação da igualdade e da justiça social, embora, devo admitir, muitos jornalistas diplomados esqueçam isto. Assim como alguns advogados e outros tantos médicos também ignoram os juramentos que fizeram. Mas, como no caso das escolas, maus profissionais não justificam a fim da profissionalização.

É um debate aberto, não sou contra os bons argumentos e já ouvi muitos sobre esta questão, inclusive contrários aos meus. Respeito-os. Mas não venha querer justificar decisões políticas (não políticas partidárias, mas daquelas que dizem respeito a ordem das coisas no mundo) com maus exemplos. Eliminar a obrigatoriedade do processo de formação para jornalista é o mesmo que proibir os professores das escolas públicas de reprovar alunos.

“Todo sistema de educação é uma maneira política de manter ou de modificar a apropriação dos discursos, com os saberes e os poderes que eles trazem consigo” (Michel Foucault).

em apuros

Passo Fundo, 02 de fevereiro de 2012.


Uma amiga em apuros sem querer, uma lei maluca aprovada, a sujeira na beira da praia em Cidreira/RS, a história que minha mãe contou sobre uma prima, enfim... coisas que vi e ouvi nesta última semana me fizeram acreditar que o mundo está mesmo de cabeça para baixo (pelo menos de onde posso vê-lo).

Claro, acredito que a transição de um conjunto de valores para outro integre a dinâmica da história. Que de tempos em tempos precisamos rever posturas diante das novas configurações que o contexto cotidiano assume (e as assume não por conta própria evidentemente). Que cedo ou tarde surgem novas religiões, as pessoas assumem novos papéis e o mundo precisa de outros cuidados. Mas tem de ser tão rápido? E, sobretudo: tão radical?

Uma noite destas me surpreendi debatendo com um amigo a questão da radicalidade de algumas medidas/idéias. Ele dizia, e talvez eu não possa lhe tirar de todo a razão, que chega um momento em que o caos é tanto que são necessárias medidas radicais para que pelo menos as pessoas prestem atenção no tema em pauta, passem a refletir sobre ele. E eu acrescentaria a esse argumento ainda outra questão: para que, pelos menos, se as pessoas não entendem a relevância ou gravidade de determinados comportamentos, obedeçam o que está estabelecido na lei, pois ela existe, suponho, para garantir a integridade humana, a justiça e o bem social.

sempre tem gente que tenta, pena que não é todo mundo!
Por outro lado, alguma coisa em mim se inquieta diante dessas justificativas. Não me parecem satisfatórias. Certa vez o professor Gerson Trombetta num dos debates do Circuito de Cinema, Cultura e Psicanálise, falando sobre uma das “faces do mal” (tema do encontro), ponderou que a racionalidade e a irracionalidade podem ser duas faces da mesma moeda. Ao construir sua fala ele disse que “há irracionalidade na tolerância exagerada”, algo sobre o que eu ainda não havia pensando. No dia seguinte comentando no twitter sobre o assunto, ele arrebatou meus pensamento dizendo: “Mais dramático ainda é pensar que há racionalidade (da boa) na intolerância!!!"

Nunca esqueci esta metonímea. Me parece que tudo que é radical implica na ignorância do contexto, porque tende a simplificação, em extremos paradoxais e isolados, do cenário complexo e integrado que é a realidade e a condição humana. Precisamos de sensatez para avaliar cada situação e não acredito que leis e medidas que a ignorem possam frutificar, sob a pena da cegueira. 

Já leu Saramago?

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Cidade suspensa

Passo Fundo, 22 de janeiro de 2012.

Quando resolvi escrever essa crônica a primeira coisa que me veio à mente foi o título. Sua referência é uma homenagem ao livro Cidade Sitiada, de Clarice Lispector, que li muito cedo na vida, talvez cedo até de demais, e pouco me lembro do enredo. Mas sinceramente, neste caso, o enredo não é mesmo muito importante.

A menção ao livro não serve para reprisar uma história, mas para referendar uma sensação, a sensação que esta história traduziu para mim ao lê-la, e que ficou gravada na memória mais do que o próprio enredo que me levou a ela.

Falo do estado de suspensão do tempo e do espaço que sentimos quando o dia, as horas, as coisas, resolvem arrastar-se diante dos nossos olhos, como se deixassem um borrado na imagem de cotidiano que produzem, justamente enquanto transitam do presente para o passado. O resultado é uma pintura disforme e esmaecida onde o futuro, ou antes dele, o extraordinário, parecem algo tão distante quanto impossível.

Era dia de Natal. Andávamos meu marido e eu, pelas ruas centrais de uma cidadezinha do interior - dessas onde ainda é possível deixar as portas das casas abertas e o portão escorado, num convite à chegada sem aviso dos vizinhos e dos amigos. Cenário bucólico senão fosse outro ingrediente que me despertou a atenção.

De fato saímos a passear porque acreditávamos estar incomodados com o quase silêncio e a imobilidade que nos cercava. Atribuímos isso, incialmente, ao contraponto com a vida quase sempre corrida que levamos. Mas em seguida descobri que nossa inquietação podia ser por um pouco mais do que isso.

Ao espiar pela fresta da porta da frente de cada casa, de cada janela pela qual passamos, descobri o que realmente me incomodava: era o som baixo e distante que entrecortava o silêncio de duas ou três passadas; era a luminosidade azulada que molhava o rosto das pessoas sentadas em seus sofás aconchegantes; era a presença da televisão.

Em pleno dia de Natal vi as pessoas estatizadas diante dela. As salas estavam cheias - sim, os parentes vindos de longe haviam comparecido ao festejo da noite anterior -, mas estranhamente ninguém conversava, o máximo de reação que percebíamos era um sorriso ou uma cara de espanto diante do comentário incauto feito pelo apresentador de plantão. Nem o conteúdo do picadeiro eletrônico pautava um muxoxo entre a parentalha, ninguém sequer piscava. Assim muitas famílias passaram a tarde, a noite talvez. Quase ninguém nas ruas, quase ninguém falava, quase ninguém se movia.

E cá pensei comigo: algumas vezes precisamos da teoria para compreender o que é feito do mundo na prática, mas em outras, mesmo sem livros nas mãos ou sem computador para consultas, podemos reaprender velhos conceitos, como o da alienação.

Tivemos muito sobre o que conversar na volta para casa: uma viagem de mais ou menos 150 km... pois é, nem tão longe dali.

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diálogos VIII

Passo Fundo, 04 de outubro de 2011.
com Saramago, sobre a memória:

"Certos momentos há da vida que deveriam ficar fixados, protegidos do tempo, não apenas consignados, por exemplo, neste evangelho, ou em pintura, ou moderadamente em foto, cine e vídeo, o que interessava mesmo é que o próprio que os viveu ou tinha feito viver pudesse permanecer para todo o sempre à vista dos seus vindouros, como seria neste dia de hoje, irmos daqui até Jerusalém para vermos, com os nossos olhos visto, este rapazinho, Jesus filho de José, enroladinho na curta manta de pobre, a olhar as casa de Jerusalém e a dar graças ao Senhor por não ter sido ainda desta vez que perdeu a alma. Estando a sua vida no princípio, que são treze anos, é de prever que o futuro lhe haja reservado horas mais alegres ou tristes que esta, mais felizes ou desgraçadas, mais amenas ou trágicas, mas este é o instante que escolheríamos para nós, a cidade adormecida, o sol parado, a luz intangível, um rapazinho a olhar as casas, enrolado numa manta e com um alforge aos pés, e o mundo todo, o de perto e o de longe, suspenso, à espera. Não é possível, ele próprio já se moveu, o instante veio e passou, o tempo leva-nos até onde uma memória se inventa [...]"

Trecho de O evangelho segundo Jesus Cristo.

Sem pontos. Cem. E Saramago (re) escripta o imaginário coletivo. 


Atravessados pelas metáforas do tempo corrido, na narrativa do escritor, é essa a porção compartilhada da nossa memória que viramos do avesso por meio da leitura; o que diante da trama equivale dizer, seu lado direito.

Sim, porque, por mais espantoso que pareça, podemos tomá-la de qualquer lado: ao se realizar através do texto (este ou qualquer outro) a memória, e em particular, esta memória, aparentemente encarcerada pela repetição do discurso religioso ocidental, e desperta no livro, é revirada. Tal percepção ancora-se em duas evidências essenciais: 1) o tecido textual não tem um fim, nem fim nem preciosidade guardada pelo invólucro das camadas do produto de uma narrativa total. Diferente da Crítica, como era praticada tradicionalmente, obstinada em encontrar o sentido oculto por trás do texto, ele não existe, não há uma verdade a ser investigada. Seus significados, assim como da antiga preza que o autor (re)encara, são construídos a partir de seu próprio desenrolar, como um novelo de lã que não guarda nada dentro da maçaroca de fios para lhe dar consistência, mas são os próprios fios enrolados uns aos outros que formam o novelo. 2) Saramago é um marginal: caminha nas beiradas da linguagem, subverte os sentidos arrasando a estrutura. Sua escrita nos toma pela estranheza e acaba estabelecendo uma relação dialógica entre o abalo do significado de certos códigos e a fabricação da memória.

Daí compreendermos a frase que, ao longo da leitura, nos atravessa: "cuide deste rebanho todos os dias como se fosse a coisa mais importante que vai fazer na vida". A oração está na boca do Pastor, ajuizada, a certa altura da história, ao adolescente Jesus. O resultado é que o menino, depois de um ano, já não se encoraja a matar um carneiro; nem deste nem de outro agrupamento; nem para comer, nem para os sacrifícios de "obrigação". O que aconteceu? Nada; nada mais do que o tempo; nada além do estorno provocado pelos encontros e desencontros da história, aquela rotina ausente das tragédias ou vitórias, os fatos não contados entre os grandes eventos da vida de alguém. 

Por isso Saramago anota, ao falar da necessidade de verossimilhança de uma novela, que, embora nos interessem os fatos essenciais, nunca supomos que os momentos decisivos do destino da personagem protagonista se sucedam um após os outros, sem intervalos de tempo e demais ocorrências pitorescas. Contar o que aconteceu entre um passo e o seguinte agrega ambiência de realidade a narrativa, de modo que, no fim das contas, é a sucessão de cada um desses eventos que nos leva a compreender qualquer coisa que seja. São todos eles, não apenas os que decidimos principais, a estrutura que sustenta os significados construídos ao ler o livro, e, por metonímia, os sentidos das lembranças que guardamos.

Assim, se, superado o susto da pontuação, temos a impressão de estarmos diante de mais um trecho da reza, logo nos vemos novamente arvorados no meio da leitura. Isso porque, ao mesmo tempo em que (re)conta os caminhos do menino Jesus, o autor vai tecendo um metatexto que revela a sua crença na pluralidade da interpretação de um texto e nos equívocos da memória, que sempre podem ser inventados (para o bem e para o mal).

O resultado dessa proposição é que, a cada página virada, revirados ficam os nossos sentidos. Afinal, trata-se da invencionice de uma memória, dos significados de um texto ou de toda a história de uma vida? E que vida? Intuo que a resposta seja: a nossa, não a do menino Jesus, pois o sujeito se realiza no texto e o texto na leitura do sujeito, feito jogo de mão. Ao (re)inventar o imaginário sobre preza tão antiga, o autor possibilita a reinvenção de nós mesmos.

diálogos VII

com minha MÃE, na Coluna do leitor da ZH de hoje 23/09/2011. Que orgulho ;-D!

 "Sem respaldo
Leio todos os dias sobre educação: que os professores devem se reciclar, que devemos melhorar a qualidade da educação, aumento dos dias letivos, etc. Gostaria de saber quando é que vão dizer para os alunos estudarem, quando vão dizer para os pais que os filhos são responsabilidade deles. A escola necessita de respaldo para poder ensinar."
Maria Dolores Barbosa de Paula
Professora - Passo Fundo

O resultado do comentário da minha mãe foi uma coluna do leitor inteirinha de debate sobre educação, hoje (24/09) na ZH. Viva Dona Dolores!!!

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O que será que há?

Passo Fundo, 20 de setembro de 2011.

Certa vez li em Barthes que todo o texto nos arrasta por seu tecido. Aliás, o autor defende que existem três vias através das quais um texto pode capturar o leitor: 1) por meio da relação fetichista que ele estabelece com as palavras, as imagens, os enquadramentos, ou melhor, o prazer de descobrir aquele conjunto de frases, de cenas, de seqüências; 2) o poder de suspense da narrativa, que ao mesmo tempo em que acontece também termina-se, pouco a pouco, diante de nós; e 3) o desejo da escrita,  “o desejo que o escritor teve de escrever: desejamos o desejo que o autor teve do leitor enquanto escrevia, desejamos o ame-me que está em toda escritura” (pg.50).

Assim, seguimos lendo, ora motivados pela ânsia de nos reencontrar no texto, ora pelos abalos que ele pode nos causar, e ora pela fruição de uma nova escrita, em particular se ela for parte de um discurso de rupturas, que se desenrola margeando a linguagem.

Atenta ao meu velho guia, observo que tenho lido muito, mas talvez não esteja lendo o suficiente, ou os textos certos, ou os lendo direito (existe isso?). O fato é que não tenho vontades de escrivinhações. O que será que há? 

Kanhgág-vi: a palavra do índio

Alguns alunos do curso de Jornalismo da UPF foram fazer intercâmbio em Coimbra – Portugal, e de lá me escreveram pedindo que respondesse algumas perguntas sobre a experiência que tive com um programa radiofônico realizado junto a comunidade indígena Kaigang da nossa região. O projeto se chamava “Kanhgág-vi: a palavra do índio no rádio”, e durou 3 anos. A entrevista foi publicada num site experimental que os alunos estão produzindo e agora compartilho com vcs:

Como foi o trabalho em relação as diferenças culturais? Era uma questão relevante? 
Sim.O objetivo do nosso projeto era produzir um programa radiofônico de 10 minutos para ser veiculado nas emissoras de rádio próximas a reserva. Queríamos garantir um espaço na programação radiofônica para esse grupo de pessoas em sua região de abrangência: o índio falando para o índio. Acreditávamos que esta proposta valorizaria uma característica inerente do rádio que é a personalização, ou seja, uma programação com a qual o ouvinte se identifique. Também observávamos que nenhuma emissora privilegiava o segmento em sua programação, o que não refletia a pluralidade do público que a escutava. Era um trabalho muito difícil e levamos quase dois anos para nos dar conta de que não era exatamente isso que os índios queriam. Seu propósito ao participar do projeto (aceitar nossas visitas, colaborar concedendo entrevistas e dividindo sua história conosco) não era construir um espaço com o qual se identificasse. Isso era o que nós achávamos importante. Para eles o que era fundamental era compartilhar a cultura indígena como não-índio. Certa vez uma cacique me disse: - precisamos que o não-índio escute o que temos a dizer, conheça nossa cultura e talvez assim aprenda a respeitá-la. Mais do que isso, hoje entendo que o que eles desejavam era eliminar nossa mediação e produzir por si só seus programas, gestar sua fala, organizá-la de uma forma muita peculiar a íntima.



Quais foram os desafios enfrentados para com a linguagem e a comunicação? 
Talvez o mais importante desafio que enfrentamos durante o projeto tenha sido o reconhecimento de que o índio tem um tempo próprio, de reflexão e fala. Para mim sua principal característica era o silêncio, longo e contundente, seguindo de uma onda de ponderações carregadas de tradição. Me parecia, a cada novo encontro, em diferentes reservas, que embora seu cotidiano se passe na contemporaneidade, o índio estava de algum modo conectado com o passado; que embora tenhamos cometido muitos erros por meio de um processo de aculturação na construção do Brasil, esse cordão umbilical não conseguimos cortar. Isso explicaria, por exemplo, porque os índios não conseguem se adaptar a vida fora da reserva. Conheci e trabalhei por alguns anos com um índio. Ele era estudante de história. Não tinha problemas financeiros, ou de discriminação na Universidade, mas percebíamos que ele sofria para se adaptar aqui: o ritmo que nos leva do pensamento a ação era muito diferente do dele. Depois de um tempo, quando perguntava algo a um índio eu já sabia que teria que esperar por alguns minutos até que as respostas fossem construídas. – é preciso pensar, é preciso pensar, era o que conselheiros e caciques me diziam. Acredito que essa herança, que pondera, é uma das responsáveis pela resistência, mesmo “abaixo de mau tempo”, de uma cultura que tem sido tão ignorada e soterrada pela sociedade do consumo na qual estamos metidos.

Alguma lembrança ou história que guarde do projeto? O que aprendeu com ele? 
Aprendi que fizemos e ainda fazemos coisas erradas em nome de coisas pretensamente certas para justificar a estrutura e a dinâmica de um país em desenvolvimento. Que é muito difícil exercitar nossa alteridade e reconhecer o outro como diverso de nós; em perceber e aceitar que por alguma razão ele está desconectado do cotidiano que conhecemos e, finalmente restaurar os nós de ligação. Temos o hábito de querer que o outro seja nossa imagem e semelhança, queremos espelhos feito Narciso, e levamos um tempo enorme para perceber que sua diferença é o que ele tem de mais precioso e que podemos aprender com ela.

Depois de trabalhar com as tribos, quais você acredita serem as principais dificuldades enfrentadas por elas, hoje no Brasil? Eles cultivam e ou preservam as suas tradições? De que forma?
Entendo que essas três últimas questões estão interligadas. A partir da minha observação e do tempo que convivi com as comunidades indígenas, penso que a principal dificuldade enfrentada por elas no Brasil hoje (e sempre) é a preservação de sua tradição e, consequentemente, da sua identidade. Nesse sentido, uma das coisas mais valiosas para uma cultura é a sua língua, a linguagem, o conjunto e a dialética dos signos que estabelece para se representar. Na língua, modo perene de comunicação de um povo, está expressa toda a sua cultura, suas relações de poder, seus jogos, seus rituais, convenções e crenças. Então, o que significaria roubar-lhe ou sufocar-lhe o direito de fala-la? 



Os povos Kanhgág no sul do Brasil estavam esquecendo sua língua (essencialmente oral). Apenas os anciãos falavam Kanhgág e a maioria deles estava morrendo. Foram necessários os esforços conjugados da FUNAI, das instituições de ensino da região e dos povos indígenas para conter este desaparecimento. Professores índios, atuando em escolas indígenas, passaram por um curso de formação bilígue e construíram um sistema de escrita para o kanhgág com o objetivo de que as crianças aprendam a língua materna de seu povo e a preservem. Problema resolvido? Não. Este, talvez seja só o mais grave deles e o reflexo da negligência com nossa trajetória histórica. Aos esquecermos dos povos indígenas, corremos o risco de esquecermos de nós mesmos.

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O que fazemos com as coisas que lemos no jornal?

*texto publicado originalmente e na íntegra na edição especial em comemoração as 86 anos do jornal 

“Nunca lhe aconteceu, ao ler um livro, interromper com freqüência a leitura, não por desinteresse, mas, ao contrário, por afluxo de idéias, excitações, associações? Numa palavra, nunca lhe aconteceu ler levantando a cabeça?” Essa é uma frase do livro Rumor da língua, escrito em 1988, por um autor francês chamado Roland Barthes. Poderíamos entendê-la de inúmeras formas, mas me agrada pensar que se trata da capacidade que todo texto tem de acordar em nós, leitores, outros textos, aqueles que vamos guardando vida à fora no imenso reservatório da memória. 

Como quem monta um quebra-cabeças, vamos juntando todas as peças disponíveis: as que já tínhamos e as novas, encaixando umas nas outras e formando uma imagem,  ou seja, a nossa interpretação sobre aquele texto. Por isso dizemos que todo leitor é co-autor do texto que lê, porque é ele quem constrói o significado do que está lendo a partir da sua bagagem cultural, e que ao acessar um texto, qualquer um, encontra a si próprio refletido nas águas da leitura. 

Nós somos o que somos à media que vamos lendo e escrevendo o mundo ao nosso redor, não apenas com as letras, mas com os sons, com as fotografias e com as imagens em movimento produzidas e espalhadas por aí. Então, um filme ou um livro guarda em si dois segredos: a história da sociedade na qual ele foi escrito e a história de cada leitor que abre suas páginas, pois junto com elas abre também todas as suas leituras anteriores, as suas crenças, os seus valores e a suas experiências de vida.

Alguma razão para os textos jornalísticos serem exceção a essa dinâmica? 

Eu carregava esta pulga atrás da orelha, porque sempre fomos enganados pelo mito da imparcialidade jornalística, do puro relato informativo. Me perguntava como construir uma interpretação diferente, uma percepção minha da verdade, sobre uma verdade já decretada pelas páginas do jornal. Qual seria a contribuição do jornalismo, um exercício público, para a construção dos sujeitos, da individualidade das pessoas?

Movida por este pulga iniciei meu estudo de doutorado na Pontifícia Universidade Católica de Rio Grande do Sul em 2008, e como objeto de análise escolhi o jornal O Nacional, em dois tempos: no registro do caso Clodoaldo, em 1979, e depois da virada do século no relato do caso Adriano da Silva. Algumas vezes me perguntaram por que escolher um jornal local para uma tese de doutorado, qual era a sua relevância?

Ao investigar O Nacional descobri, reveladas pelas tramas da narrativa jornalística de dois séculos, que as possibilidades de leitura em certas ocasiões transcendem essa instância da objetividade jornalística estabelecendo um vínculo ainda mais estreito entre o leitor e o texto. Através da leitura, reconhecemos o outro, nos reconhecemos, questionamos o lugar, o compromisso do sujeito com o mundo e ressignificamos a história como produto contingente. Ou seja, as imagens, as notícias publicadas nas páginas do jornal, nos dizem de diferentes formas, que somos responsáveis por esta história que está sendo escrita, que fazemos parte dela.

Descobri que cada notícia pode guardar em si uma surpresa, exigindo que nos questionemos sobre quem somos, sobre nossa identidade: o que nos aproxima ou nos distingue do outro, personagem do texto e, afinal, qual é a nossa contribuição para transformar essa realidade noticiada? 

Olhando para O Nacional, um veículo de circulação local, percebi a evidência de um dado universal sobre o jornalismo e sobre nosso papel como leitores. E para mim aqui está o grande valor deste jornal.

blábláblá é o que eles falam... eles quem?

Li agora há tarde, no Observatório, o texto “Um ato de guerra, segundo o Pentágono”. O artigo foi publicizado originalmente no Wall Street Journal e traduzido para o monitor da imprensa brasileira por Jô Amado.

Embora o que me levou a lê-lo tenha sido a ocorrência da palavra cibercombate, ao terminar a leitura, seu conteúdo não pareceu versar sobre o potencial da tecnologia, mas sobre Política. Não sobre a política partidária, mas sobre a política das relações que movem o mundo. Melhor ainda seria dizer, não sobre a política, mas sobre o poder. No entanto, como invariavelmente vejo poder transmutando-se em política e política transmutando-se em poder, é um texto que versa sobre os dois.

Penso que o que está em questão no relato produzido por Siobhan Gorman e Julian E. Barnes, não é a necessidade de determinar quem invadiu o computador de quem, nem a necessidade de provar que esta invasão teria sido uma ação de determinado país, ao invés de uma organização, ou de um ato isolado de certo sujeito. Também não me parece que se trate do tamanho do estrago que a ação possa ter causado para validar o ato com Ato de Guerra, ou mesmo a construção de uma prerrogativa que equipare o ataque militar desterrotializado/virtual ao ataque militar armado, o que constituiriam a máxima “violência física versus violência simbólica”.

O que me parece estar no comunicado feito pelo Departamento de Defesa norte-americano, é justamente a revelação (ou seria melhor dizer, a manutenção) de quem PODE chegar a esta conclusão; quem PODE transformar uma expressão política: “Ato de guerra” (e, portanto, aparentemente sem força de lei), numa expressão legal. Mais uma vez o Doxa marca seu lugar, combatendo não o cibercombate, mas os discursos de resistência que pipocaram pelo mundo. Até porque, o que poderiam dizer as outras nações? Feito uma espiral do silêncio emudecem. Se alguém dentro do Pentágono determinar que esta ou aquela invasão É militar e que sua adoção incita a guerra, o que poderá detê-los? Não lembro de nos terem perguntado ou acatado quaisquer das nossas decisões. E digo aqui nós (os outros países) como um rótulo, <>, mas também me pergunto: somos tão diferentes assim? Já que não me recordo de nenhum momento da história do mundo em que os discursos encráticos não tenham sido calados ou convertidos.

Mais uma vez assistimos o capital simbólico da tecnologia associar-se como metonímea ao do campo da POLÍTICA, política internacional, revelando o PODER, o poder do discurso de uma cultura sobre as outras. 

Grupo da foto

Pessoas queridas,
estão todos convidados a visitar nossa Exposição e navegar por nosso site: www.grupodafoto.org 


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    "ao reescrever o que dissemos, protegemo-nos, vigiamo-nos, riscamos as nossas parvoíces, as nossas suficiências (ou insuficiências), as hesitações, as ignorâncias, as complacências; [...] a palavra é perigosa porque é imediata e não volta atrás; já a scriptação tem tempo à sua frente, tem esse tempo próprio que é necessário para a língua dar sete voltas na boca; ao escrever o que dissemos perdemos (ou guardamos) tudo o que separa a histeria da paranóia" (BARTHES, 1981, p.10).

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quem é a garota da vitrine?

Minha foto
Sou formada em Radialismo e Jornalismo pela Universidade de Passo Fundo e desde 2004 atuo como professora dos cursos de Comunicação Social na mesma instituição. Ainda na UPF, fiz especialização em Leitura e Animação Cultural, e recentemente concluí o doutorado pela PUCRS. Sempre trabalhei com o universo radiofônico, pelo qual sou apaixonada. Gosto particularmente das suas aproximações com a arte. Minhas últimas descobertas de pesquisa rondam em torno da produção de sentido (em nível verbal e não-verbal) sob a perspectiva semiológica.

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pelo caminho...

pelo caminho...
lendo... só lendo e imaginando uma história da nossa suposta história...

O museu é virar a gente de ponta cabeça. Tem versão digital ao clicar na imagem.

da era do pós-humano.

de Brenda Rickman Vantrease, sobre os poderes que se interdizem desde o início dos tempos.

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o que são scriptografias e outras escrivinhações?

O título deste blog foi inspirado nas observações feitas por Roland Barthes a cerca do processo de produção e significação dos textos que circulam pela prática social. Ele fala em scriptação, escrita, escritor e escrevente. No entanto, o nome scriptografias e outras escrivinhações, não passa de uma "licença" poética, por assim dizer, com o objetivo de nominar um espaço de livre expressão, em formatos e temas que fazem parte do meu cotidiano, assim como do cotidiano de quem por aqui passar.
    hola !



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